Uma nova edição de Ostrácia, de Teresa Moure, numerária da AGLP, reivindica “um estilo galego na Lusofonia”

Para mim Ostrácia é carne viva”, afirmou a académica no lançamento desta versão revisada e “mais galega”. Afirma que neste romance, como noutros trabalhos seus, tenta “recuperar figuras femininas da história que têm sido apagadas das versões oficiais”

AGLP 15/03/2025

Texto: J. Rodrigues Gomes. Coordenação Linguística: Antia Cortiças. Produção: Xico Paradelo.


Teresa Moure, numerária da Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP), reivindicou que “temos direito a ter um estilo galego na Lusofonia”, no lançamento de uma nova edição do seu romance Ostrácia, em Santiago de Compostela. É mesmo uma nova edição, não uma reimpressão mais: apesar de que a capa é a mesa, acrescentando só o número da nova edição galega, sob a chancela da Através; e a contracapa e a badana da capa também continuam o mesmo (sim mudam, evidentemente, as novas publicações da editora anunciadas na badana da contracapa, atualizando a informação das mesmas). Agora oferece uma nova versão, “mais galega”, após ter revisado o texto Olívia Pena Arijón, professora e doutora em galego-português especializada em estilística e crítica literária, quem partilhou com Moure o ato deste novo lançamento, o 27 de fevereiro, no salão da Casa do Taberneiro de Compostela. Assim, agora Ostrácia é “mais galega do que antes”, sublinhou Olívia Pena, quem disse que sentia como este novo texto é assim em parte também seu. “Uma escritora precisa sempre uma corretora”, frisou Moure, quem se manifestou satisfeita das mudanças, que as duas comentaram e acordaram antes da nova impressão.

O lançamento desta nova edição foi um aliciante diálogo entre Teresa Moure e Olívia Pena. Acontece dez anos depois da primeira edição. E Moure lembrou como, também dez anos antes, tinha publicado outro romance histórico, Herba Moura, que foi acolhido pelo mercado com “um inexplicável sucesso, à custa, em boa medida, de perverter as intenções da autora”. Teresa Moure esclarece que, entre os objetivos desta narrativa, como de outros trabalhos seus, está recuperar figuras femininas da história que têm sido excluídas das versões oficiais.

Interesse da crítica

Enriquece-se assim a história e a trajetória de Ostrácia, um produto literário especial para a sua autora. Ostrácia foi traduzida para espanhol (na editora Tiempo de papel, em 2021); e Moure valeu-se do seu primeiro capítulo “Sobre nós, as aranhas”, para a sua apresentação nas Correntes da Escrita da Póvoa de Varzim em 2019. A crítica galega, e a não galega, evidenciou interesse nesta narrativa; mesmo a lusófona, como se pode ver na recensão que a professora de literatura e crítica brasileira Maria Fernanda Garbero, docente e investigadora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, publicou no número 8 do Boletim da Academia Galega da Língua Portuguesa (pp. 171-176)1, onde põe em diálogo Ostrácia com outras duas obras de Moure: Eu violei o lobo feroz (Através, 2013) e Uma mãe tão punk (Chiado, Lisboa, 2014).

Ostrácia, na edição galega –na espanhola há divergência, por causa da diferença de referentes a respeito da trajetória de Moure, segundo ela própria esclareceu— consta de uma “Nota” inicial, de apenas umas linhas, mas de relevo e interesse para quem decida refastelar-se na sua leitura; a história, em que são centrais as relações entre as personagens de Vladimir I. Lenine e a revolucionária Inessa Armand, consta de quatro partes: “A persuasão”, “A hegemonia”, “A revolução” e “Um mundo novo”. Na continuação inclui um “Posfácio”, de 4 páginas, datado em “Compostela, 2015, primavera a arder”, em que refere dados de relevo do processo de produção do texto, narrado por uma filha de Inessa Armand; e finaliza dando conta de “Referências básicas”, oito publicações editadas entre 1992 e 2015 (esta última data é também a da primeira edição galega de Ostrácia), em que se alicerçou para escrever este livro.

Dum lado a História; doutro a intimidade. Dum lado, as palavras de ordem das ideologias políticas revolucionárias. Doutro, o orgasmo múltiplo e os fetiches do Domínio e a Submissão. Dum lado, as figuras de Lenine, Alexandra Kollontai, Nádia Krupskaia e, sobretudo, Inessa Armand. Doutro, a experiência de escrever sendo mulher e, portanto, interpretando como autora de textos vagamente feministas, reivindicativos mas também florais e românticos. Quando a escritora acha um fio narrativo singular –a vida da revolucionária bolchevique Inessa Armand–, experimenta certas contradições” assinala-se, à partida, na contracapa de Ostrácia, para dar conta ao leitor. Esse espaço, tão de relevo, finaliza pondo em destaque como “Se a militância fosse entrega e as ideologias tiverem que mudar o mundo, então Inessa Armand e a escritora devem entrelaçar-se para contar o nunca contado: que Política e Erótica vão da mão, que tudo na Política, como na cama, se reduz a bailar com o Desejo. Para a política não ser politiquinha e o Desejo não se conformar com desejinhos. Para fazermos habitável a Ostrácia”. Uma Ostrácia que ela define como “esse território para a liberdade e para a dissidência”

Teresa Moure ingressou na AGLP tempo depois de publicar Ostrácia. O seu discurso, “Identidades aracnídeas e verdades incómodas”2, evoca esta narrativa: nele defende como a mentira é um talento ao dispor de todas as pessoas, mas como o “cerne da minha identidade” é que “não posso conformar-me com a mentira”, apesar de que “quem escreve, mente” e “a narração é mentira elevada à condição de arte”, entre outras afirmações que também são de ajuda para entender esta exitosa Ostrácia.


1 Este boletim, como os restantes publicados pela AGLP, está disponível, de acesso livre e de graça, neste mesmo sítio web.

2 O discurso está publicado no número 10 do Boletim da Academia Galega da Língua Portuguesa, nas pp. 243-259; e na continuação, nas pp. 261-264, a resposta que teve do académico Mário Herrero Valeiro. Este boletim, como os restantes publicados pela AGLP, está disponível, de acesso livre e de graça, neste mesmo sítio web.

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António Gil Hernández, presidente da AGLP, falou dos seus estudos sobre Biqueira na Universidade da Corunha

Salientou o Biqueira político, para além dos seus contributos literários, à Filosofia e à Psicologia, e a sua proposta de convergência ortográfica galego-portuguesa. A estes assuntos António Gil tem dedicado mais de três décadas de estudo.

 

AGLP 05/03/2025

Texto: J. Rodrigues Gomes; Produção: Xico Paradelo.


João Vicente Biqueira1 (Madrid, 22/10/1886- Lagoa-Bergondo, 29/08/1924) “sobretudo era um bom galego. Os problemas políticos e sociais da nossa Terra encontraram uma calorosa ressonância no seu peito generoso e ao lado dos nacionalistas galegos” afirma-se no livro Johán Vicente Viqueira. João Vicente Biqueira (1924-2024). Poemas e Ensaios, publicado na Através Editora em 2024, em edição que promoveu a Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP) e sob a responsabilidade de António Gil Hernández, agora presidente desta instituição. Os elementos dessa citação estiveram no centro da sua intervenção na Faculdade de Filologia da Universidade da Corunha o 25 de fevereiro, onde proferiu uma palestra sobre Biqueira e a Galiza federada. A sua presença deveu-se a um convite dos Professores Isaac Lourido e Roberto Samartim, e ao grupo de investigação ILLA, o que lhe ofereceu ocasião de conversar com estudantes das Filologias sobre a trajetória de Biqueira, com ensejo do centenário da morte deste vulto da Galiza.

Foto dos assistentes à palestra de 25 de fevereiro deste ano 2025 na Facultade de Filoloxía da UDC. Junto do professor Gil está o Prof. Isaac Lourido.

António Gil Hernández investiga sobre este intelectual galeguista há mais de três décadas. Em 30 de junho de 1994 participou num ato literário sobre Biqueira na Casa de Cultura do Concelho de Bergondo, sob presidência do seu filho, o Eng. Jacinto Viqueira Landa e esposa; foi uma atividade em que se honrou a memória de Biqueira no septuagésimo aniversário da sua morte. Já antes se tinha interessado Gil por este vulto, e continuou com novos contributos nos anos seguintes. Para além do pensamento político, assunto em que centrou esta palestra na Universidade da Corunha, também trabalhou sobre os contributos de Biqueira à Literatura Galega, onde destaca, entre outros assuntos, por ser um adiantado do movimento do Neo-trovadorismo, anos antes de Bouza Brei, quem está considerado hoje o seu iniciador; no Campo da Psicologia tem destaque por ser introdutor da Psicologia Experimental na Península Ibérica, após ter tido relação direta com W. Wundt; salientam igualmente os seus estudos sobre o bilinguismo e a psicologia da educação; e conta também com uma importante obra filosófica. Biqueira também foi um dos primeiros defensores da convergência ortográfica galego-portuguesa. E todos eles são assuntos do maior relevo e de atualidade, assinala Gil Hernández.

A respeito desta recente intervenção na Faculdade de Filologia corunhesa, manifesta António Gil: “Entendi que a palestra deveria ser levada como conversa com as pessoas assistentes mais do que como conferência quase protocolária. Nem o tempo programado, entre as 13.00 e as 14.00 horas, nem o previsível interesse do público aconselhavam o contrário. Comecei dando uma leve notícia sobre a pessoa e obra de Biqueira, que foi Catedrático do Instituto de Secundária Eusébio Da Guarda, presidente das Irmandades da Fala na Crunha e mais participante da Assembleia Nacionalista de Lugo. Continuei com a leitura do artigo ‘O dia de mañán’, publicado postumamente, em 6 de decembro de 1924, no semanário socialista Justicia Social, órgão da USC (Unió Socialista de Catalunya)”. Esclarece António Gil como neste artigo Biqueira se declara republicano e federalista, e ressalta o seguinte excerto:

No crítico momento presente conviria que os elementos que somos partidarios de un novo federalismo, en que nos achamos arredados os uns dos outros, entrásemos en comunicación. Para elo o centro poderia ser o valioso nucleo que integra Justicia Social. Nesta comunicación concretaríanse as concepciós que o dia de mañan serian un feito. [...] Que estas liñas de verdadeira simpatia pol-os meus amigos cátalas, poidan espertar o interés, en toda España, por unha meditación sobre dun futuro estado republicano federal socialista ou social, meditación que si é fonda e sinceira, trocarase o día de mañán en realidades”.

Após diversos comentários a esse e outros textos biqueiranos, citou também o seguinte trecho da conferência "Divagações enxebristas":

A Humanidade, para cumprir todas as promessas que leva no seu seio ou, ainda melhor, para criar tudo o que leva em potência (pois, antes de ser, onde jaz?), desfaz-se em Nações. Já a vida precisa, para ser, do princípio de individuação, a saber, de ser como indivíduo ou concreções de indivíduos. Idêntico princípio é o da evolução humana que também é cósmica, quer dizer, uma parte do processo universal. Como vedes, o meu Nacionalismo tem uma base cósmica e metafísica. A Humanidade desfaz-se em Nações, porque precisa órgãos. As Nações, pois, são órgãos da Humanidade. Elas fazem tudo o que é factível em cada tempo. Não num momento de tempo, mas no se sucederem os tempos. E aqui, também, cada uma tem a sua missão; e quando a sua missão acaba, morre! Mas a missão da Galiza chega e por isso ressurge”.

Esta citação é da Obra seleta de Johán Vicente Viqueira (página 72), que António Gil Hernández publicou no ano 2011 na coleção Clássicos da Galiza [nas Edições da Galiza, de Barcelona], promovida pela AGLP. Também é autor de um longo artigo “Johán Vicente Viqueira e a Comunidade Lusófona da Galiza”, nos boletins números 10 e 11 da AGLP, correspondentes aos anos 2017 e 2018 [estes boletins estão disponíveis, de acesso livre e de graça, neste sítio web da AGLP].

Esta intervenção na Universidade da Corunha finalizou com um breve colóquio sobre Biqueira pensador e político, e também sobre o seu poetar. “Muito agradeço aos professores Lourido e Samartim, ao grupo ILLA e à Faculdade as facilidades para realizar o ato-conferência sobre Biqueira”, sublinhou o presidente da AGLP.


1 Gil Hernández tem utilizado indistintamente Viqueira e Biqueira: Viqueira por ser “a denominação por ele usada”, e para “respeitar o desejo expresso da família”; mas Biqueira, por considerar que dever ser assim mais corretamente grafado este apelido “com B inicial, por ser derivado de bico”, segundo esclarece em Obra seleta de Johán Vicente Viqueira (Gil Hernández, 2011, página 13).

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Edição galega da Estilística de Rodrigues Lapa, o português que estudava escritores da Galiza como modelos de língua, com o apoio da AGLP

 

Paulo Mirás, numerário da AGLP, é o diretor editorial da publicação, que sai do prelo da Através com um “Prólogo” do professor José Luís Rodríguez

 

AGLP 01/03/2025

Texto: J. Rodrigues Gomes; Produção: Xico Paradelo.


A Estilística da Língua Portuguesa, do filólogo, ensaísta e professor português Manuel Rodrigues Lapa (Anadia, 1897-1989) “mantém características únicas que a tornam especial e insubstituível. A sua abordagem à língua e ao estilo continua a ser um marco, oferecendo detalhes valiosos que não se encontram noutros trabalhos. Esta reedição é uma homenagem ao seu legado e uma oportunidade para as novas gerações descobrirem uma obra que moldou o estudo da língua portuguesa”, afirma o professor Paulo Mirás, numerário da Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP) e diretor editorial da primeira edição galega desta obra clássica. A publicação sai agora do prelo da editora Através, de Santiago de Compostela, coincidindo com o 80 º aniversário da primeira edição na Seara Nova de Lisboa no ano 1945. Esta é uma edição que promove a AGLP.

Em vida de Rodrigues Lapa contou com até onze edições, em Portugal e no Brasil. Esta nova edição galega acompanha-se de um prólogo de José Luís Rodríguez, professor catedrático da Universidade de Santiago de Compostela, quem o conheceu e colaborou estreitamente com ele. Rodríguez põe em destaque os trabalhos de Rodrigues Lapa sobre a Galiza e lembra como, já desde 1933, aborda a política do idioma, em que “vê três modalidades: a galega, a lusitana e a brasileira, às quais muito mais tarde haverá de acrescentar pelo menos a africana ou africanas, após a independência das antigas colónias. E propõe avançar na unificação ortográfica, sempre que possível, tanto com o Brasil como com a Galiza”.

O livro editado pela Através tem 230 páginas, incluído um “Índice analítico” de autores, matérias e palavras. Para além do antes citado “Prólogo”, o volume consta de 15 capítulos: quatro deles dedicados ao vocabulário português, e outros sobre a fraseologia, a formação das palavras, o artigo e os pronomes, o adjectivo e os nomes, os pronomes, dois capítulos sobre o verbo, um específico sobre a concordância, e os três últimos sobre palavras invariáveis. 

Os dois primeiros lançamentos do livro estão agendados para o 7 de março, no Porto, na UNICEPE, cooperativa livreira de estudantes do Porto [na Praça de Carlos Alberto 128 A] às 18.00 horas, com a intervenção de Joana Matos Gomes, da Universidade do Porto, e Paulo Mirás; e o 4 de abril na livraria Centéssima Página, de Braga, pelas 18.30 horas, com a presença de Álvaro Iriarte Sanromán, professor da Universidade do Minho,  com José Luís Rodríguez e Paulo Mirás.

 

Literatura galega em diálogo com as literaturas lusófonas

Na Estilística da Língua Portuguesa, para além de estudar o estilo de grandes nomes das literaturas lusófonas (Eça de Queirós, Machado de Assis, Camões, Guimarães Rosa, Camilo Castelo Branco, Mário de Andrade, Monteiro Lobato e mais), Rodrigues Lapa também se ocupa do estilo de escritores da Galiza, como Castelao, Carvalho Calero, Novoneyra, Otero Pedrayo, Cabanillas, Blanco Amor, Fole ou Xavier Alcalá.

Como exemplificação do tratamento de autores da Galiza, no segundo dos capítulos que dedica ao vocabulário, ao falar do eufemismo, após citar o caso do conselheiro Acácio, famoso personagem de Eça de Queirós, acrescenta Rodrigues Lapa (p. 33): “Até os ladrões entre si usam o eufemismo, como aquele ratoneiro duma novela de Castelao, que suavizou o termo roubar em apanhar”, acrescentando um trecho de Os dous de sempre.

Devemos valorizar o interesse e o esforço de Rodrigues Lapa como um trabalho visionário que construía pontes além das nossas fronteiras, tanto dentro como fora da Europa. A sua obra serve para nos abrir os olhos e mostrar que não estamos sós no mundo: partilhamos uma língua comum que deve ser dignificada e celebrada. Para Lapa, os nossos escritores fazem parte de um universo linguístico e cultural mais amplo, onde o galego e o português se complementam e enriquecem mutuamente”, afirma Paulo Mirás.

Ele via a língua como um instrumento vivo, cheio de recursos e estilo, capaz de crescer e evoluir com os seus utilizadores. A sua defesa da ortografia portuguesa como algo tão nosso quanto deles deixa claro o seu ponto de vista: a língua é um património partilhado, que transcende fronteiras e se fortalece na sua diversidade. Rodrigues Lapa não só nos ensinou a valorizar a nossa língua, mas também a vê-la como um elo de união e identidade no mundo lusófono”, acrescenta o diretor editorial do volume.

 

Um referente incontornável”

Paulo Mirás frisa que, para a Galiza atual “Rodrigues Lapa continua a ser um referente incontornável sobre como escrever bem na nossa língua. O professor português sempre considerou os autores galegos como exemplares para Portugal e o Brasil, vendo o galego como uma extensão natural da língua portuguesa. A Galiza ocupava um lugar especial no seu coração, algo que fica evidente nas suas inúmeras viagens à nossa terra e na sua dedicação ao estudo e promoção da cultura galega. Esta relação profunda com a Galiza materializou-se em obras como os Estudos Galego-Portugueses. Rodrigues Lapa não só valorizou a nossa língua, mas também a integrou num contexto mais amplo, reforçando a sua importância como património partilhado e vivo”.

Página da obra no site da Através editora.

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Mirás Fernandes, Paulo (1990)

Paulo Fernandes Mirás nasceu em Ordes e realizou estudos superiores na cidade da Corunha, onde cursou Inglês e Galego e Português; os mestrados de Literatura Cultura e Diversidade e de Professorado de Educação Secundária Obrigatória, Formação Profissional e Ensino de Idiomas. Atualmente, está a fazer o Doutoramento em Estudos Literários também na Universidade da Corunha.

Foi o responsável das antologias poéticas de Ricardo Carvalho Calero (2019) e Ernesto Guerra da Cal (2021), publicadas na Através Editora, a biografia de Ricardo Carvalho Calero (2020) publicada na editora Ir Indo e os livros de poemas Estado Demente Comrazão (2022), editado na Através Editora e A toada de pedra (2023), publicado na Editora Medulia.
É professor de Língua e Literatura Galegas e Língua Portuguesa, investigador do grupo ILLA da Universidade da Corunha, Académico Numerário da Academia Galega da Língua Portuguesa, responsável do Boletim da AGLP, membro da União de Escritores de Língua Portuguesa e membro da equipa editorial da Através Editora, onde coordenou livros como Mover os marcos e João Vicente Biqueira - Johán Vicente Viqueira (1924-2024), entre outros.

 

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Rodrigues Gomes, Joel (1959)

Joel Rodrigues Gomes nasceu em Ourense em 1959.

Estudos: licenciado em Filosofia e Ciências da Educação (seção Psicologia) e em Filologia Portuguesa pela Universidade de Santiago de Compostela (USC).

De profissão jornalista, exerceu no La Voz de Galicia entre 1981 e 2022. Está casado e tem uma filha.

Na sua produção de investigação salientam trabalhos de pesquisa académica sobre a figura e legado de Ernesto Guerra da Cal e sobre os Seis Poemas Galegos de Federico Garcia Lorca, realizados no Grupo de Estudo dos Sistemas Culturais Galego, Luso, Brasileiro e Africanos de Língua Portuguesa (Galabra) da USC. Publicações nesse campo são:

Fazer(-se) um nome. Eça de Queirós-Guerra da Cal: um duplo processo de canonicidade literária na segunda metade do século XX (Sada, Ed. do Castro, 2002).

A sua tese de doutoramento, orientada pelo Professor Doutor Elias J. Torres Feijó, intitulada A trajetória de Ernesto Guerra da Cal nos campos científico e literário (Serviço de Publicações da USC, 2009).

Os Seis poemas galegos de Federico García Lorca e os cânones das literaturas espanhola, galega e brasileira”, Romance Notes, 2013, 53:2, 221-236 (com Elias J. Torres Feijó).

Falou Ernesto Guerra da Cal (1985)! A construção de um novo discurso sobre os Seis poemas galegos de Federico García Lorca”, in Gil Hernández, António (2016), Estudos sobre Guerra da Cal, Santiago de Compostela, Academia Galega da Língua Portuguesa, pp. 17-33.

Turismo, literatura e internacionalidade. A afortunada história de Ramón de Sismundi após a intervenção de F. García Lorca, E. Guerra da Cal, E. Blanco Amor, Anxel Casal e Júlio Dávila”, Terras do Ortegal, 2023. Pp. 163-193.

Editou, com Elias J. Torres Feijó, o estudo Rosalia de Castro. A Mulher e o Poeta, de Alberto Machado da Rosa (Santiago de Compostela, Laiovento, 2005), a primeira tese de doutoramento em português defendida nos EUA, em 1953 na Universidade de Wisconsin (Madison).

Para além de outros estudos difundidos em Atas de congressos e revistas especializadas da Galiza, Portugal, Brasil e os EUA.

Da produção jornalística, para além das informações durante mais de quatro décadas no La Voz de Galicia publicou o livro Vite de Compostela. A comunidade (auto-)construída (Santiago de Compostela, 2023, Incipit-CSIC). Também elaborou os índices de conteúdos da revista Agália, disponíveis nos números 65 (pp. 101-290, dos anos 1985-2000), 104 (pp. 155-277, do período 2001-2009) e 114 (pp. 145-195, entre 2009-2016, os anos finais da publicação, com 3.253 verbetes no total).

Da produção literária, podem citar-se as narrativas Quando o sol arde na noite (A Corunha, AGAL, 1990), Para um clima supremo (Santiago de Compostela, Laiovento, 1995, no volume Relatos), e Todo o sim de Lor (Vigo, Galaxia, 2001, no volume Paisaxes con palabras); ou os textos para teatro A Desforra (A Corunha, Escola Dramática Galega, 1991) e Teatro à medida e pronto para si (A Corunha, AGAL, 1998).

 

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Cortiças Leira, Antia (1980)

Parida em Santiago de Compostela, com origens completamente de Ferrol e com algum ramal pretensamente lisboeta. É licenciada em Filologia Portuguesa pela USC no 2004 onde também cursou os estudos específicos para a carreira docente (antigo CAP). Desenvolveu parte dos seus estudos secundários em Lisboa (no IES Gíner de los Ríos), assim como mais algum do seu curso de licenciatura (na Universidade Nova de Lisboa).
Profissionalmente e desde o ano 2008 o seu foco tem sido desenvolver o seu labor como docente de língua portuguesa de diferentes níveis nas Escolas de Idiomas na Galiza. Tendo já lecionado também noutras EOI do estado espanhol (nomeadamente Bilbau, Zafra e Valencia).
Paralelamente, tem desenvolvido e/ou tutorizado cursos e-learning de língua portuguesa para o público geral através de diferentes instituições público-privadas, ou especificamente para a formação do professorado através de plataformas da Xunta e sindicatos.
Anteriormente, foi professora dos Cursos de Português ofertados e desenvolvidos em parceria entre o Institutro Camões em Vigo e o Centro de Línguas Modernas da Univerdidade de Vigo (2008-2009, 2011 e 2017); assim como foi a pessoa responsável pelas matérias de língua portuguesa dos cursos de Tradução e Interpretação e de Filologia Galega da Universidade de Vigo (2009).
Também, e ainda no que diz respeito ao âmbito linguístico-literário, tem trabalhado como corretora linguístico-ortográfica e como tradutora ou adaptadora de diversos trabalhos, obras ou projetos.
Fez parte durante quase uma década do Grupo de Investigação Galabra da USC onde participou como investigadora colaboradora e/ou contratada, principalmente dentro dos projetos "Ilustração e mulher", "Turismo e Identidade – TUI" e “Discursos, imagenes y practicas culturales sobre Santiago de Compostela como meta de los caminos de Santiago.
Faz parte de longa data da DPG (Associação de Docentes de Português na Galiza) da qual foi presidenta durante o período 2015-2018, onde ainda na atualidade faz parte da sua equipa diretiva como tesoureira. Também é sócia da AGAL (Associação Galega da Língua), da Pró-Academia, da Fundaçom Artábria, foi-no do antigo MDL (Movimento em Defesa da Língua), entre um longo etcétera doutros contributos de caráter mais político-social através de diversas ONG e associações.
Como autora tem escrito alguns breves trabalhos académicos sobre o teatro ou a importância da correspondência na Ilustração portuguesa, assim como algum sobre o ensino da língua portuguesa na Galiza. Alguns deles foram publicados como artigos de livro (A correspondência como meio de
difusão do cânone: o caso de Metastasio e Gluck no epistolário Vimieiro-Oeynhausen (2005), capítulo livro, em Correspondência (Usos da Carta no Século XVIII), Lisboa: Colibri/ Fundação das Casas Fronteira e Alorna), atas de congressos ou simplesmente foram apresentados como palestras
em conferências, congressos ou colóquios académicos vários.
Num nível cultural mais alargado tem colaborado com algum artigo no Portal Galego da Língua, no jornal Novas da Galiza... e a sua última mini-contribuição foi com uma letra para uma música do livro-CD recentemente editado O Colo das Palavras.

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O número 15º do Boletim anual da AGLP inclui 22 trabalhos e uma mensagem de otimismo

Paulo Fernandes Mirás assume a partir do próximo número a direção da publicação, na qual esteve à frente desde os inícios António Gil Hernández.


 

Fazer descarga de anexos

Mais de 250 páginas e 22 trabalhos integram o número 15º do Boletim da Academia Galega da Língua Portuguesa (BAGLP), de periodicidade anual. Saída recentemente do prelo, a publicação está acessível já, na sua versão digital, no sítio web da Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP), https://www.academiagalega.gal/ e também disponível em edição impressa.

O volume principia com um “Editorial e despedida” (pp. 7-8), que assina o professor António Gil Hernández, atual presidente da AGLP e diretor do BAGLP desde os inícios, em 2008. Neste tempo dirigiu os 15 números anuais, mais cinco anexos. «Podemos estar satisfeitos e sermos otimistas, porque o BAGLP foi capaz de acompanhar as atividades da Fundação Academia Galega da Língua Portuguesa e mesmo a vida académico-universitária das pessoas membros de número, das pessoas académicas correspondentes e das pessoas amigas intelectuais e ativistas, tanto da Galiza e doutras nações do Estado-Reino bourbónico de España, quanto da LUSOFONIA toda», afirma. O também professor Paulo Fernandes Mirás exercerá como o novo diretor, já desde o próximo volume.

 

Estudos de especialistas da Galiza, do Brasil e do País Valenciano

Na continuação, a parte principal da publicação, oferece seis estudos, que se prolongam entre as páginas 11 e 150. Estão assinados os quatro primeiros por José-Martinho Montero Santalha, José-Manuel Barbosa, Joel R. Gômez e Alexandre Banhos Campo, especialistas da Galiza; e os outros por Evandro Vieira Ouriques, do Brasil; e por Josep J. Conill, do País Valenciano.

No primeiro deles, “A contagem silábica dos versos na Galiza” (pp. 11-36), José-Martinho Montero Santalha ocupa-se dos dois sistemas que os estudos literários nas línguas românicas empregam para a contagem das sílabas dos versos, o oxitónico e o paroxitónico. Defende «a conveniência de que também na Galiza, como território de língua portuguesa que é, se adote o sistema habitual na área lusófona, isto é, o oxitónico, que conta só até a última sílaba tónica do verso». Defende a sua argumentação utilizando produções líricas de Firmino Bouça Brei, Manuel-Luís Acunha, Salvador Golpe, Rosalia de Castro, Álvaro Cunqueiro, Curros Henríquez, as Cantigas de Santa Maria de Afonso X, a poesia popular, o padre Sarmiento, e de Amado Carvalho, Martim Padrozelos, Eduardo Pondal, Martinho Torrado, Leiras Pulpeiro, Ramom Cabanilhas, Aquilino Iglésia Alvarinho, Francisco Anhom, Nicomedes-Pastor Díaz, Noriega Varela, e Labarta Posse.

José-Manuel Barbosa, em “Alguns apontamentos sobre Prisciliano” (pp. 37-60) traslada-nos aos tempos em que a Galiza era a Galécia extensa e priscilianista. Apresenta algumas questões duvidosas e esforça-se por propor soluções a respeito da origem de Prisciliano, bem como faz um pequeno roteiro espaço-temporal ao redor da elaboração do mito da presença e enterramento de Santiago o Maior na Galiza. São assuntos recorrentes no tratamento de diversos especialistas e de continua atualidade na Galiza, os quais tenta iluminar com este estudo.

Joel R. Gômez, em “Funções e percursos das sete décadas de produções poéticas de Ernesto Da Cal” (pp. 61-83) alicerça-se nos aproximadamente 150 produtos de poesia publicados por Ernesto Guerra da Cal, que referencia, nos seus quase 83 anos de vida, incluídas produções póstumas e inéditas. Da Cal utilizou 3 línguas e 9 assinaturas diferentes e difundiu essas produções em 12 países, na procura de diferentes funções e percursos. Essa dispersão dificulta o seu conhecimento e estudo, que este trabalho pretende esclarecer, para facilitar a sua edição crítica.

Alexandre Banhos Campo, em “Porque Portugal não se chama Galiza?” (pp. 85-94) lembra como Portugal não foi reconhecido como reino pelo papado até 1179. Com antecedência foram acontecimentos de relevância como a batalha de São Mamede, que teve lugar em 1128, coincidindo com a altura na qual o rei da Galiza Afonso VII estava no processo de gerir a incorporação na sua pessoa das coroas de Leão e Castela; ou o tratado de Samora de 1143, pelo qual o rei Afonso VII da Galiza, que queria ser chamado e tratado de imperador, assinou o tratado com o seu primo Afonso Henriques, onde lhe concedia de facto a independência do reino da Galiza, a Portugal, sempre que como rei aceitasse a sua preeminência como imperador.

Evandro Vieira Ouriques, em “A Doutrina do Mel, a condição comunicacional e a verdade. Sobre a requalificação clínica da capacidade de julgar” (pp. 95-115) traz à nossa consideração a «íntima relação de alguns dos princípios fundamentais da filosofia indiana», que, como investigador, vem «desenvolvendo ao longo dos anos sob a denominação de Terceira Estrutura da Verdade». O artigo sustenta a emancipação psicopolítica de psiquismos e de redes de psiquismos, as instituições e justifica a denominação da «doutrina do mel».

E Josep J. Conill, em “Lasciate ogni speranza: da ‘normalización’ à língua nua” (pp. 117-146) reflete sobre «a situação terminal a que o catalão dos valencianos tem chegado após o fracasso da ilusão normalizadora imperante desde a Transición». É reflexão que, em valorização de António Gil Hernández, «cumpre ler também em chave galega, galaico-española e galego-portuguesa». Conill relata «um panorama cheio de incertezas [da língua autóctone do País Valenciano], que pode desembocar na sua liquidação definitiva nos fins deste século». Fronte a esta eventualidade, aponta para «a necessária articulação de uma consciência sociolinguística da condição terminal, capaz de se responsabilizar com lucidez da gravidade da situação e emanada da vivência liminar da língua nua, enquanto experiência da exclusão quotidiana dos falantes do catalão no País Valenciano».

 

Discursos das tomadas de posse de três académicas e um académico

Na parte de “Instituição” (pp. 149-218) a maioria do espaço deste número 15 º do BAGLP é para os discursos das tomadas de posse de três académicas, Adela Clorinda Figueroa Panisse, Maria Castelo Lestom e Joana Magalhães; além do académico Pedro Casteleiro. A eles deu o recebimento em nome da AGLP José-Martinho Montero Santalha.

O discurso de Adela Figueroa, subordinado ao título “Uma língua, uma cultura, uma civilização: Galiza na lusofonia” (pp. 163-178) salientou o interesse de se ter aprovado por unanimidade no Parlamento da Galiza a denominada Lei Paz Andrade, para aproveitar os vínculos da Galiza com a Lusofonia. Afirma que «Eu sei que, na atualidade a maioria dos vultos que se exprimem em língua galega, quer escritoras quer políticas, consideram que a opção reintegracionista, a opção internacional para a nossa língua, é a acertada. Na sua maioria estas pessoas não escrevem na norma do galego comum para os países de fala lusófona ou de galego moderno, por diversas razões, mas não por beligerância contra esta norma. Nalguns casos é por ignorância, outros por comodidade outras vezes por insegurança. Mas sempre por temor». Adela Figueroa, quem representou à Galiza em 1986 (juntamente com Isaac Alonso Estraviz e José Luís Fontenla) no encontro internacional celebrado no Rio de Janeiro para procurar um Acordo Ortográfico para os países de língua portuguesa, alicerça-se em contributos de personalidades tão diversas como Bernabé João, Fausto, Zeca Afonso, Sandra Manuel, André Pena Granha, Angel Carracedo, Bryan Sykes, Rodrigues Lapa, Arnaldo Trindade, Beto Souza Pinto, Marica Campo, Benito Eládio Rodríguez Fernández, Vendana Shiva; bem como contributos dela própria, um de poesia erótica e outro respeitante a Rosalia de Castro, para defender no final que «Na Galiza temos um rico corpus cultural. Rosalia de Castro é emblemática. Ela é a primeira feminista, a primeira nacionalista galega a primeira ecologista».

Maria Castelo Lestom referiu-se a “Tecedoras de redes: A mulher e a língua no mundo pós-petróleo” (pp. 179-183). Neste contributo salientou que «Como militante, ativista e divulgadora tanto do teto do petróleo quanto da importância da nossa língua se imbricar no sistema linguístico que lhe corresponde pretendo é manifestar a importância do conceito de rede social, não entendida esta no sentido atual de rede com base informática, mas como conexão de comunidades e sociedades, de pessoas».

Joana Magalhães, na sua “Palestra” (pp. 185-190) ressaltou como «Se não estou em erro, esta tomada de posse coincide com a primeira vez que se realiza de forma coletiva, mostrando uma diversidade de vozes, pensares e saberes, representando outros valores fundamentais para a convivência de múltiplas identidades, e que tão bem carateriza a língua portuguesa». Também chamou a atenção «para o potencial da ciência cidadã para a resolução de desafios transfronteiriços, como podem ser aqueles que afetam zonas florestais, sistemas hídricos, espécies protegidas, ou mesmo, e porque não, de integração linguística». Joana Magalhães salientou assim mesmo na intervenção como a sua «experiência-vivência colectiva na Galiza, o meu pensamento, investigação, prática e ação têm sido permeáveis a valores de inclusão e diversidade, interdisciplinaridade, e também a processos de descolonização e desconstrução do que é ser cientista, do processo de geração de conhecimento, da objetividade da ciência. E posso afirmar com segurança, fazem de mim, uma cientista mais aberta, mais consciente do que a rodeia e espero, espero poder retribuir com o meu trabalho e a minha voz».

Pedro Casteleiro intitulou o seu depoimento “Justiça, verdade e beleza” (pp. 191-194). Afirmou que «Fazendo balanço dos anos, das décadas vividas, não posso recordar um momento em que, independentemente das circunstâncias, o que realmente me fizesse feliz deixasse de girar em torno disso que podemos chamar Justiça, Verdade e Beleza. Quando digo ‘me fizesse feliz’ digo me nutrisse, a um nível muito essencial, tão essencial como o pão quotidiano». [...]«A minha vida gira em torno a uma paixão, a uma necessidade de nutrição, que se plasma na procura de Justiça, Verdade, Beleza e que, por isso, é que eu devo de estar fadado a, com mais ou menos títulos, ser o que sou: jurista, um filósofo –pragmático– e um filólogo de coração –um amante apaixonado do fenómeno linguístico e, especialmente, daquilo que concerne à nossa língua». Casteleiro reprovou «a vacuidade que ocupa um lugar predominante nas redes sociais contemporâneas» e finalizou com estas palavras: «Continuarei, prometo, exercendo a tríplice função, de jurista por título, de filólogo por amor e por necessidade a de filósofo prático. E, prometo, como o bom ladrão, deixarei neste trabalho um rasto de silêncio, prenhado de esmeraldas».

No discurso de resposta e recebimento dos novos membros e tomadas de posse, José-Martinho Montero Santalha, que foi o primeiro presidente da AGLP, indicou que «Ainda outras duas novas académicas numerárias eleitas recentemente deveriam ser recebidas também hoje: Antia Cortiças Leira e Iolanda Rodrigues Aldrei. Por compromissos pessoais, não podem estar presentes neste ato, de maneira que o seu recebimento público fica para outra ocasião. Com todos estes nomes torna-se transparente o esforço da nossa Academia por corrigir o desequilíbrio entre o número de mulheres e homens: um desequilíbrio que, não por ser tradicional e ainda comum em muitas esferas da nossa sociedade, deixa de ser injusto e, portanto, intolerável». Disse-lhes Montero Santalha às novas académicas e académico que «Tendes desde agora uma nova casa e até quase uma nova família. Detrás dela está, em primeiro lugar, a longa série de mestres que assim na Galiza como em Portugal, no Brasil e nos outros territórios de língua portuguesa defenderam a unidade linguística galego-portuguesa, e, em segundo lugar, estão as muitas pessoas galegas de hoje que se sentem parte da Lusofonia. A AGLP convida-vos a exercer e desenvolver nela as vossas capacidades, as vossas ideias e propostas e as vossas iniciativas, em serviço da língua que nos une e nos configura como pessoas. Em nome da Academia digo-vos mais uma vez: bem-vindas e muito obrigado!».

O capítulo de “Instituição” inclui também um relatório (pp. 149-160) das onze atividades que realizou em 2022 a AGLP, um ano difícil, lembra, por causa das dificuldades da pandemia da covid-19. Informa (pp. 161-162) da comemoração, por vez primeira, do “Dia da Academia”, agendado em 15 de dezembro de 2022 em Compostela, na sua sede da Casa da Língua Comum. Acrescenta a “Laudatio in honorem Isaac Alonso Estraviz” (pp. 197-203), proferida por Maria do Carmo Hernríquez Salido, professora catedrática da Universidade de Vigo o dia 18 de julho de 2022, no reconhecimento público a Estraviz, numerário da AGLP, com a Medalha de Ouro de Ourense por parte da Deputação Provincial de Ourense. Inclui depois o artigo “A nossa língua: Mil anos de história, 8 séculos de escrita: o testamento de 1214 de Dom Afonso II”, (pp. 205-215), assinado por José-Martinho Montero Santalha; e finaliza com uma “Necrológica de Adriano Moreira (1922-2022)”, nas pp. 217-218, em que se lembra este vulto da intelectualidade e a política portuguesa, também membro correspondente da AGLP, falecido em 23 de outubro de 2022.

 

Referência de seis publicações

Este volume 15º do BAGLP finaliza com a referência de seis publicações. São estas: “Remover Roma por Santiago. O Conflito entre Roma e Santiago à Luz da Historia Compostelana”, de Henrique Egea (pp. 221-225), de que se ocupa José Manuel Barbosa, académico numerário da AGLP; “Teoria das Ruínas”, livro de poesia de Alfredo Ferreiro Salgueiro (pp. 227-230), que valoriza o professor e crítico José António Lozano; “Tempo Tardade”, narrativa de Raquel Miragaia (pp. 231-233) e “A unidade e a harmonia da realidade. Complexidade e ecoloxía”, estudo de Victorino Pérez Prieto (pp. 239-247), dois livros resenhados por José-Martinho Montero Santalha, académico numerário da AGLP; “Matria. Poesia para a terra”, volume de Adela Figueroa Panisse, académica numerária da AGLP (pp. 235-238), de que fala Stela Strada; e “Manual Galego-Português de História”, de Manuel Lopes Zebral (pp. 249-249) de que escreve António Gil Hernández, académico numerário da AGLP.

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O Dicionário Galego-Português Estraviz completa 20 anos de serviço na Internet como “Uma explosão de luz no universo da língua”

Promove-o o lexicógrafo Isaac Alonso Estraviz, académico numerário da AGLP, ultrapassa os 151.400 verbetes, é o mais amplo dos editados na Galiza e inclui léxico dos países da CPLP


AGLP 01/01/2025

Texto: J. Rodrigues Gomes; Fotografias: Raquel Pérez Rodríguez; Coordenação Linguística: Antia Cortiças Leira; Produção: Xico Paradelo.


A versão eletrónica do Dicionário Estraviz (ou também Dicionàrio e-estraviz, acessível em www.estraviz.org) ultrapassa os 151.400 verbetes, incorporando léxico da Galiza e da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) ao completar 20 anos da sua presença na Internet. Promovido pelo lexicógrafo Isaac Alonso Estraviz, membro numerário da Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP; em cujo sítio web, academiagalega.gal está também disponível, como dicionário de referência), esta obra começou o seu andamento no dia primeiro de janeiro do ano 2005 no Portal Galego da Língua (www.pgl.gal), web oficial da Associaçom Galega da Língua (AGAL). Em finais de junho do 2009, quando oferecia 121.505 entradas, estreou domínio próprio na rede e permitiu também pesquisar léxico na ortografia ILG-RAG. Em meados de julho de 2011, quando chegava a 126.319 termos, inaugurou uma versão em linha para telemóveis. E desde 2014 apresenta a versão atual, adaptada ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Este dicionário, o mais amplo dos editados na Galiza, é um emblema do movimento que, na Galiza, promove a confluência da língua autóctone com a da CPLP, e acompanha-se do lema Uma explosão de luz no universo da língua.

“Trabalharei neste dicionário enquanto estiver vivo”, afirma Isaac Estraviz, quem no próximo 26 de janeiro de 2025 comemorará o seu 90º aniversário. Desde os inícios teve como colaborador principal a Vítor Manuel Lourenço Peres, quem em 2005 coordenava o Portal Galego da Língua, e que continua a introduzir novos termos, gerir o funcionamento na rede e mesmo oferece sugestões e propostas de novas palavras para incorporar e aumentar o léxico: “A implicação e o apoio do Vítor Lourenço foi e é imprescindível”, admite Isaac.

 

Mais de meia vida de dedicação, estudo e pesquisas, desde 1979

Num primeiro momento, o Dicionário Estraviz (ou Dicionário e-estraviz) “mesmo tinha jogos, que fazia o professor Valentim Fagim e que, quando foi crescendo, se suprimiram. Para mim eram uma coisa fenomenal, fantástica, porque ajudavam muito para trabalhar com o léxico. Este dicionário eletrónico fez-se partindo de um de três tomos, que tinha publicado anos antes na editora Alhena (veja-se infra). Na Internet aparecem as pessoas que colaboraram comigo para materializar o projeto pois, à partida, houve de passar o léxico de aqueles três tomos para a normativa ortográfica da AGAL”. Naquela altura presidia a AGAL Bernardo Penabade, quem em 2013 publicou na editora Através um modelar livro-entrevista com Isaac Alonso Estraviz, imprescindível e muito recomendável para conhecer a sua biografia e trajetória, e que dedica um capítulo importante ao dicionário.

O Dicionário Estraviz é resultado de um trabalho continuado, com contribuições constantes. “Agora acho que já não há muitas palavras pendentes, embora se continuem a acrescentar. No dia 2 de novembro de 2024, por exemplo, ainda foram introduzidas 20 entradas novas. E mais algumas nos dias seguintes. Também há emendas e modificações; lembro um caso em que se acrescentou só uma vírgula. Acho que é preferível que faltem palavras a incluir algumas mal”, esclarece Isaac.

“Os últimos anos foi introduzido muito léxico do Vocabulário Ortográfico Comum da Lusofonia, com a colaboração de um especialista brasileiro, Rodrigo Wiese Randig, que atualmente mora em Brasília. Em muitos dos verbetes que ele forneceu identifica-se o país de procedência, são Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e mais da CPLP; aparecem singularizados, com as definições próprias desses países, e costumam ser de plantas, animais e diversos elementos caraterísticos de cada uma dessas realidades particulares. É por isso que se localizam, no resto do dicionário não aparece onde se utilizam as palavras, só essas de países africanos. E isso também contribui para que seja um dicionário mais completo”, acrescenta.

Além disso, e segundo o depoimento de Estraviz “introduziram-se nomes dos pássaros de todo o mundo. Isso foi consequência da Tese de Doutoramento Os Nomes Portugueses das Aves de Todo o Mundo: Projeto de Nomenclatura, defendida no ano 2021 por Paulo Domingos Paixão, um especialista português que mora em Bruxelas. Depois de falar com ele, as entradas foram-me enviadas durante mais de um ano por Paulo Correia (Lisboa) e Jorge Madeira Mendes (Porto). Ofereceram-me a mim, à Priberam e à Infopédia incluir esse léxico. No meu dicionário consegui introduzir por volta de 11.000 aves de todo o mundo. Há outros especialistas, como o galego Ramiro Torres, que tem recolhidas muitas palavras, que de quando em vez publica no Nós Diário, com quem falei e concordou em que podia valer-me das suas propostas, se via novidades de interesse, o que não sempre acontece. Também há muitas que entram por sugestões de particulares, que estudo, e às quais aceito ou renuncio”.

O Dicionário Estraviz prosperou após mais de meia vida de dedicação, estudo e pesquisa. Segundo as suas próprias explicações: “Comecei a trabalhar em 1979. Estivera um ano em Lisboa, para fazer a Tese de Doutoramento sobre variantes lexicais galegas e portuguesas, com uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian, que era de maior quantia que outra que me davam na Universidade Complutense madrilena. Queria fazer um estudo comparativo entre textos medievais da parte galega e da portuguesa, para assim elaborar uma gramática e depois dedicar-me a um grande dicionário. Como naquela altura não havia os meios que temos hoje, perdia muito tempo na procura do léxico de ambos os lados. Ainda conservo todo o material que consegui. Quando aquela ajuda finalizou tentei conseguir outra da Fundación Barrié para continuar a investigação. Da Fundación Barrié responderam-me que era competência da Universidade de Santiago de Compostela (USC), e afinal não me foi concedida. As coisas não correram como esperava e foi abandonado aquele primeiro projeto por falta de meios; mas entreguei-me em cheio a trabalhar para um dicionário”.

 

O Dicionário Nos Ilustrado (1983), com louvor de Carvalho Calero

De Lisboa regressou para San Fernando de Henares, em Madrid, onde tinha a sua morada. Lá foi onde o editor e livreiro Ramom Akal González lhe propôs elaborar um dicionário. Assim o memora Isaac: “Já tinha trabalhado antes com Akal, como tradutor e adaptador do Livro de São Cipriano, no primeiro mapa escolar em galego e outros mais, e pediu-me que fizesse um dicionário Galego-Castelhano. Respondi que isso não, mas que podia fazer um dicionário galego em galego, proposta que apoiou a sua companheira, Cristina. Naquela altura surgiu a normativa ortográfica para a língua galega, que promoveu e aprovou a Administração Pré-Autonómica em 1980, elaborada por uma Comissão Linguística presidida por Ricardo Carvalho Calero e que tinha como secretário José Luís Rodríguez Fernández. Impus como condição que se empregasse essa normativa. Mas eu só não podia fazer um dicionário. Então fiz várias viagens à Corunha, Ferrol e Santiago de Compostela, para buscar colaboração. Acabavam de sair os primeiros licenciados e licenciadas em galego-português da USC, e vários aceitaram colaborar; embora houve alguns que depois não tivessem feito nada”.

Porém, aquela iniciativa também resultou em nada: “O maior problema era que fazia as viagens, trabalhava e tinha despesas, e o Akal não mas pagava. Então passou por Madrid o Bieito Ledo e ofereceu-me fazer o dicionário para a editora Galaxia. Combinámos publicá-lo primeiro em fascículos, depois em volumes. Mas de novo não saiu nada, por discrepâncias a respeito da normativa ortográfica a utilizar, e afinal rescindimos o contrato. Ramón Piñeiro, que fora partidário de uma ortografia comum a galegos e portugueses, da qual ele punha como exemplo os livros de Guerra da Cal publicados por Galáxia, ao não fazer parte da Comissão Linguística do governo da Pré-Autonomia, passou-se à normativa do Instituto da Língua Galega e propôs-me que fosse falar com Constantino García, um senhor a quem eu nunca ouvira falar em galego. Daí surgiu a ruptura”, esclarece.

Mas Estraviz continuou a trabalhar, completou a primeira versão de um dicionário galego, e apareceu a oportunidade de o publicar. Aconteceu em 1983, na empresa editora Nos, sediada na Corunha, que pertencia a Francisco Seijas Fornos, e que nos anos finais da década de 1970-1980 e inícios da seguinte tinha algum sucesso com o livro galego. Foi assim que saiu dos prelos, sob a chancela da Nos (“É Nos, não Nós: Nos é a segunda sílaba de Fornos, não tem nada a ver com Nós”, adverte Isaac) o Dicionário Nos Ilustrado, que deveria conter “mais de 80.000 verbetes, em 5 volumes, onde iam as entradas na ortografia do Governo do Pré-Autonomia e entre parênteses na forma etimológica. O primeiro volume terminava em champulheiro”, esclarece Isaac.

Assim, sob a iniciativa, direcção e responsabilidade de Isaac Alonso Estraviz, na elaboração deste dicionário colaboraram Luís Cambeiro Cives, Xosé Manuel Enríquez, Xosé G. Feixó Cid, Manuel Ferreiro Fernández, Maria do Carmo Garcia Pereiro, Anxo González Guerra, Xosé Luís Grande Grande, Vitória Ogando, Tareixa Roca Sánchez e Xavier Rodríguez Baixeras, “alguns, antigos discípulos” de Carvalho, como ele declara no “Prólogo” (p. IX). Nesse “Prólogo”, Ricardo Carvalho Calero salientava o acertado do trabalho e mesmo a singularidade da metodologia utilizada, pois segundo destacava o primeiro catedrático de Língua e Literatura da Universidade de Santiago de Compostela (Carballo Calero, 1983) “este dicionário serve-se do galego para explicar o galego. [...] propriamente nengun ensaio anterior se propuxo o mesmo plano, nen en estrutura nen en comprensión, que se propón este dicionário”. Ressaltava a “competéncia científica” das pessoas elaboradoras desse dicionário, além da “exaustiva colleita de dados” que tinham realizado, bem como o “seu verdadeiro entusiasmo, pois exige un afinco minucioso e un esforzo de plasmazón unitária, que só está disposto a oferecer o que ama sinceramente o objeto do seu labor. Este sincero amor está presente en cada página deste corpus, que ofereceria demasiadas dificultades práticas a quen acometese o labor sen entusiasmo ardente, até impulsá-lo a abandonar tan árdua empresa”. E finalizava aquele prólogo Carvalho Calero saudando o aparecimento do primeiro dos cinco volumes previstos, “inspirado polos mesmos ideais que motivaron tanto do meu esforzo pasado” e que julgava “obra tan útil e formosa”.

Do Dicionário Nos Ilustrado publicou-se só esse primeiro dos cinco volumes anunciados, porque “o editor de Nos meteu-se em muitas empresas ao mesmo tempo e não pôde com tudo. Em fevereiro-março de 1984 tinham de estar publicados os 5 volumes, mas o projeto fracassou. Depois houve mais gente a quem lhes interessava o dicionário, mas na normativa para a língua galega do ILG-RAG, e eu por isso não passava. Mesmo vieram umas pessoas de Saragoça, e uma editora catalana, que perguntaram para publicá-lo, mas não chegamos a um acordo”.

 

Um Dicionário da Língua Galega em três tomos (1986), na Alhena.

Foi um período complicado, reconhece Isaac. E memora: “Como o tempo estava a correr, decidimos criar uma nova editora, Alhena. E, sem o pensar, vi-me como autor e editor de um dicionário com um custo superior a vinte milhões de pesetas1, estando na miséria!!! Envolveram-se na empresa o diagramador, Dámaso Gutiérrez Ovejero, e o fotocompositor, António Montero. No entanto, os membros responsáveis da editora éramos três: Nieves, uma licenciada em Românicas, natural de Málaga, que era a mulher de Dámaso Gutiérrez Ovejero e estava no desemprego; um senhor de Toledo reformado, sogro do fotocompositor, que foi quem contribuiu com as primeiras 100.000 pesetas para poder pôr em andamento a empresa; e mais eu, que levava dois anos no desemprego. Entraram em jogo também outras pessoas que deviam dinheiro ao fotocompositor. Aquele Dicionário da língua galega organizou-se num tamanho superior ao da editora Nos, com menos ilustrações, e em três volumes. Saíram os três a finais de agosto e primeiros de setembro de 1986”.

Desde setembro de 1986 estavam prontos e disponíveis os três volumes, e vendiam-se juntos. O primeiro deles, com as letras A-D, chegava até a página 949; o segundo, até a página 1.871; e o terceiro, que incluía as letras finais, entre o O e o Z, finalizava na página 2.749. Também oferecia em apêndice os paradigmas dos principais verbos irregulares, palavras e locuções estrangeiras usuais, nomenclatura geográfica ou datas históricas da Galiza. “A fotocompositora do dicionário estava situada no bairro de Usera, em Madrid; e a mim ficava-me um tanto longe, porque continuava a morar em São Fernando de Henares. A edição incorporava mais de 95.000 entradas. Na primeira semana recuperou-se bastante dinheiro, seis milhões de pesetas, mas como o fotocompositor devia dinheiro por toda a parte esse dinheiro entrava e não se via. Afinal, e para evitar entrar na cadeia por dívidas, malvendeu bastantes coleções ao distribuidor Manuel Ferreiro, natural de Lugo e com domicílio em Santiago. Vendeu-lhe os três volumes a 5.000 pesetas, quando a venda ao público era a 25.000. Dos exemplares que eu vendia, enviava parte do dinheiro para o fotocompositor; outra parte para os colaboradores; e quem não cobrou nada pelo dicionário fui eu. Foi mesmo assim”, ressalta o ilustre lexicógrafo e lexicólogo ao memorar aquele tempo.

Em Alhena publicaram-se ainda vários livros, “entre eles o meu Estudos Filológicos Galegoportugueses (1987). O fotocompositor mudou-se para uma vila perto da autoestrada que vai da Galiza para Madrid, a uns 15 quilómetros da capital. Ali estive uma vez com ele. Mais tarde chamou-me Dámaso Gutiérrez para ir a Madrid, pois o Montero comprara a nome de Alhena uma máquina em Barcelona, que não pagava, para declarar que Alhena nunca comprara tal máquina. Declaramos a mulher de Dámaso e mais eu. E aí terminou tudo”, lembra Isaac.

1.-Lembrar que, quando em 01/01/2002 se começou a utilizar o euro (€), moeda hoje vigorante na União Europeia, o valor de 1€ equivalia a 166,386 pesetas espanholas e a 200,482 escudos portugueses. 

 

Interesse de Manuel Alvar e nova edição em Sotelo Blanco (1995).

Esgotada aquela edição “pensamos em fazer uma nova, para a qual tinha um prólogo de Manuel Alvar, quem naquela altura, além de ser professor catedrático da Universidade Complutense de Madrid, era o diretor da Real Academia Espanhola, e de quem eu fora aluno na Complutense e por isso me tinha muito apreço pessoal. Graças a ele concederam-me uma bolsa, que me serviu para trabalhar no dicionário. Mais tarde o próprio Alvar ofereceu-me outra oportunidade, de participar no Curso Superior de Filologia de Málaga [que ele promoveu durante mais de 35 anos, dependente do Consejo Superior de Investigaciones Científicas], para completar os estudos de doutoramento. Estavam feitas umas 900 páginas do dicionário e a possibilidade de acrescentá-lo. Alvar queria que fizesse uma introdução ao dicionário que me serviria como tese de doutoramento. O próprio Manuel Alvar redigiu um prólogo para a que ia ser a segunda edição desse dicionário da Alhena, mas não se levou a cabo. Ainda conservo aquele seu prólogo. Antes publicara um artigo sobre o Dicionário no jornal La Voz de Galicia”. Nesse artigo, difundido em 10 de dezembro de 1990, tempo em que Alvar era o diretor da Real Academia Espanhola, salienta do “gran Diccionario gallego de Isaac Alonso”, como a sua leitura o levava a concluir que “habrá que plantearse — una vez más— las relaciones de Portugal con Galicia, pues alface, mojo o mil más no son exclusivas de un dominio sino que pertenece a los dos. Se nos está planteando la propia naturaleza de cualquier lengua, y la del gallego en el caso que estudiamos: una estructura lingüistica recibe influjos muy variados, a los que recoge y asimila o rechaza. Este Diccionario tiene muy clara conciencia de cómo son las cosas y, lo mismo ocurre en todas partes, cree que el eclecticismo es válido no como fácil componenda, sino como arduo quehacer en busca de un consenso que valga para todos y a ninguno dañe”. Conclui Alvar o seu contributo respeitante aos três volumes editados por Alhena, assinalando: “un diccionario, esto es, un utensilio eminentemente práctico nos ha venido a plantear multitud de problemas científicos. Y eso suscita una cuestión previa o conclusiva. ¿Cualquier diccionario obligaría a pensar así a un historiador de la lengua? ¿O sólo obligan a ello los buenos diccionarios?”.

No entanto, sim haveria uma nova edição impressa do Dicionário da Língua Galega de Isaac Alonso Estraviz: a que que publicou em 1995 a editora Sotelo Blanco, de Santiago de Compostela. Constava de um único volume e, para a sua viabilidade, Estraviz teve de suprimir parte das entradas dos três volumes da Alhena. Esta nova edição contava de 1.591 páginas e apresentava-se como um dicionário manual completo e, dentro dos manuais “o mais completo” das línguas românicas ao uso. Aspirava a “ser utilizado por todos os galegos”, independentemente da norma, ortografia ou normativa que utilizassem. Nas suas páginas informa que, antes de se publicar, foi revisto completo por Carlos Durão, falecido em 2023 e quem, ao igual que Isaac Alonso Estraviz, esteve entre os membros fundadores da AGLP.

 

Profissional docente e investigador, tradutor e produtor literário.

Isaac Alonso Estraviz nasceu em Vila Seca (Ourense), em 26 de janeiro de 1935. É licenciado em Filosofia pela Universidade de Comilhas (1973), em Filosofia e Letras pela Universidade Complutense de Madrid (1974) e nesta mesma universidade em Filologia Românica (1977). Também é diplomado em Cultura e Língua Portuguesas pela Universidade de Lisboa (1976). Atingiu o grau de doutor em Filologia Galega pela USC (1999) com a tese O Falar dos Concelhos de Trasmiras e Qualedro, que lhe orientou o professor doutor Jesus Pena Seijas: é esta uma investigação de 1.581 páginas, distribuídas em 2 volumes, em que se ocupa de gramática, fonética, sintaxe, léxico, literatura popular, jogos e tradições e outros assuntos que ele pesquisou, e em que dedica também 7 páginas a citar as pessoas que foram “principais informantes” para realizar esse trabalho, em especial entre os anos 1992-1998. Em 1986 ele foi assim mesmo um dos três representantes da Galiza, juntamente com José Luís Fontenla e Adela Figueroa, no encontro internacional reunido no Rio de Janeiro para procurar um novo Acordo Ortográfico para a Língua Portuguesa.

Na década de 1970-1980, Isaac Alonso Estraviz ministrou aulas de língua e cultura galegas em Madrid, nas associações Lôstrego, Irmandade Galega e no Ateneo de Madrid. No ano letivo 1984-1985 foi contratado e incorporou-se ao quadro de docentes do centro privado Pablo VI, da Rua de Petim. Neste concelho ourensano também colaborou em Rádio Antojo, “que levávamos católicos e galeguistas” diz, e onde lembra um contributo muito especial: uma entrevista que lhe fez a Manuel Rodrigues Lapa e que se difundiu naquela estação de rádio, mas cuja gravação se extraviou “e bem que o lamento, porque era um depoimento muito valioso”. Naquele projeto colaborou com outro docente, Ramón González Cid, que era de Maceda. Depois exerceu em centros de ensino secundário como professor de Língua e Literatura Castelhana, entre 7 de novembro de 1985 a 30 de junho de 1987, como docente substituto, ensinando em liceus de Ferrol, Ponte d’Eume, Santiago, A Corunha, Ponte Vedra, Vigo e Ordes, com aulas ministradas em galego. Estando em Ordes recebia cartas da Junta de Galiza para que concorresse a uma praça. Saiu triunfante e por conselho de Maria do Carmo Henriques Salido, pediu para o IES Otero Pedraio de Ourense, de onde se apresentou depois para uma vaga de Didática da Língua e Literatura da Universidade de Vigo, Campus de Pontevedra e depois Ponte Vedra e Ourense e, quando foram aumentadas as horas letivas, só Ourense.

Para além de lexicógrafo, lexicólogo, docente e investigador, Isaac Alonso Estraviz é tradutor e produtor literário. Entre as distinções que tem recebido, o Concelho de Qualedro dedicou-lhe a sua Sala de Cultura; é membro correspondente da Academia das Ciências de Lisboa; ou, ainda em 19 de julho de 2022 foi reconhecido com a Medalha de Ouro de Ourense, que lhe entregou a Deputação Provincial, num ato em que fez a sua laudatio Maria do Carmo Henríquez Salido, professora catedrática da Universidade de Vigo.

Do seu tempo como professor assinala Isaac Alonso Estraviz: “Sempre que dei aulas de galego, em centros públicos ou privados, nunca tive um livro de texto. Expunha todas as normativas vigentes para a língua galega, mas não exigia que ninguém utilizasse a minha, dava liberdade, só lhes pedia ao alunado que fossem coerentes na que escolhessem. Para mim, isso teria sido a salvação do galego: não impor, mas fomentar o carinho pela língua”.

Na profissão teve presente também o valor didático da lexicologia e da lexicografia, já desde os inícios. Em outubro de 1984, quando lecionava no centro privado antes assinalado da Rua de Petim, numa entrevista jornalística afirmava ter um projeto para que o seu alunado elaborasse durante o ano letivo um dicionário com palavras de aquela comarca ourensana.

 

O futuro: a Fundação Estraviz.

Nos meses finais de 2024, para além de continuar com o dicionário, Estraviz informa que “estou a trabalhar numa autobiografia. Tenho já mais de 80 páginas. Vou completar algumas informações do livro de Bernardo Penabade, e acrescentar cousas novas”.

E qual será o futuro do dicionário?, pergunto. E responde: “Quando eu morrer, corresponderá à Fundação Estraviz, que se está a constituir. Já a tínhamos bastante avançada, mas ultimamente houve problemas por parte da advogada que se ocupa da burocracia, e que estão a ser solucionados. Trabalhamos nos Estatutos. A ideia é que estejam representadas as três universidades galegas e duas portuguesas. As gestões para as portuguesas estavam avançadas, mas houve mudança na presidência da Câmara Municipal de Montalegre e tenho que renovar os contatos com a nova presidenta; já falámos e ela disse concordar com o projeto. Há que ir preparando o terreno para ficarem as cousas prontas”.

A Fundação Estraviz também se ocupará da sua biblioteca, em que “há muitos materiais que não tem nenhuma universidade galega. Esta casa onde moro e todo o que tem dentro, e a horta que a rodeia, tudo vai ser para a Fundação”, anuncia Isaac.

 


PARA SABER MAIS.

Alonso Estraviz, Isaac, “O nosso dicionário”, in Penas, Miguel (2012, coord.), PGL 10: a nossa língua na rede, a nossa língua no mundo, Ourense, Através, pp. 135-139.

Alvar, Manuel, (10/10/1990), “Pensando sobre los diccionarios”, La Voz de Galicia, p. 7.

Carballo Calero, Ricardo, “Prólogo”, in Alonso Estraviz, Isaac, (1983) Dicionário Nos Ilustrado, A Corunha, Nos, pp. VII-IX.

Delgado, F, (05/10/1984), “Entrevista con Isaac Alonso Estravís”, La Voz de Galicia (Edição de Ourense), p. 37.

Gômez, Joel R., (2010), “O mundo que o português criou para o galego; reportagem com Isaac Alonso Estravís, Camilo Nogueira, Valentim R. Fagim e Elias J. Torres Feijó”, Arraianos, nº 8; pp. 107-110

Henríquez Salido, Maria do Carmo, (2022), “Laudatio in honorem Isaac Alonso Estraviz”, Boletim da Academia Galega da Língua Portuguesa, nº 15, pp. 197-203.

Penabade Rei, Bernardo (2013), Conversas com Isaac Alonso Estraviz, Santiago de Compostela, Através. [Este volume, de mais de 250 páginas, que incorpora importante documentação e iconografia, é na atualidade a principal referência sobre Isaac Alonso Estraviz].

Vidal, Alonso, (2005), “Estraviz: Na Galiza som muitas as palavras porque som muitas as paisagens”, Novas da Galiza, número extraordinário, pp. 221-223.

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