“Para mim Ostrácia é carne viva”, afirmou a académica no lançamento desta versão revisada e “mais galega”. Afirma que neste romance, como noutros trabalhos seus, tenta “recuperar figuras femininas da história que têm sido apagadas das versões oficiais”
AGLP 15/03/2025
Texto: J. Rodrigues Gomes. Coordenação Linguística: Antia Cortiças. Produção: Xico Paradelo.
Teresa Moure, numerária da Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP), reivindicou que “temos direito a ter um estilo galego na Lusofonia”, no lançamento de uma nova edição do seu romance Ostrácia, em Santiago de Compostela. É mesmo uma nova edição, não uma reimpressão mais: apesar de que a capa é a mesa, acrescentando só o número da nova edição galega, sob a chancela da Através; e a contracapa e a badana da capa também continuam o mesmo (sim mudam, evidentemente, as novas publicações da editora anunciadas na badana da contracapa, atualizando a informação das mesmas). Agora oferece uma nova versão, “mais galega”, após ter revisado o texto Olívia Pena Arijón, professora e doutora em galego-português especializada em estilística e crítica literária, quem partilhou com Moure o ato deste novo lançamento, o 27 de fevereiro, no salão da Casa do Taberneiro de Compostela. Assim, agora Ostrácia é “mais galega do que antes”, sublinhou Olívia Pena, quem disse que sentia como este novo texto é assim em parte também seu. “Uma escritora precisa sempre uma corretora”, frisou Moure, quem se manifestou satisfeita das mudanças, que as duas comentaram e acordaram antes da nova impressão.
O lançamento desta nova edição foi um aliciante diálogo entre Teresa Moure e Olívia Pena. Acontece dez anos depois da primeira edição. E Moure lembrou como, também dez anos antes, tinha publicado outro romance histórico, Herba Moura, que foi acolhido pelo mercado com “um inexplicável sucesso, à custa, em boa medida, de perverter as intenções da autora”. Teresa Moure esclarece que, entre os objetivos desta narrativa, como de outros trabalhos seus, está recuperar figuras femininas da história que têm sido excluídas das versões oficiais.
Interesse da crítica
Enriquece-se assim a história e a trajetória de Ostrácia, um produto literário especial para a sua autora. Ostrácia foi traduzida para espanhol (na editora Tiempo de papel, em 2021); e Moure valeu-se do seu primeiro capítulo “Sobre nós, as aranhas”, para a sua apresentação nas Correntes da Escrita da Póvoa de Varzim em 2019. A crítica galega, e a não galega, evidenciou interesse nesta narrativa; mesmo a lusófona, como se pode ver na recensão que a professora de literatura e crítica brasileira Maria Fernanda Garbero, docente e investigadora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, publicou no número 8 do Boletim da Academia Galega da Língua Portuguesa (pp. 171-176)1, onde põe em diálogo Ostrácia com outras duas obras de Moure: Eu violei o lobo feroz (Através, 2013) e Uma mãe tão punk (Chiado, Lisboa, 2014).
Ostrácia, na edição galega –na espanhola há divergência, por causa da diferença de referentes a respeito da trajetória de Moure, segundo ela própria esclareceu— consta de uma “Nota” inicial, de apenas umas linhas, mas de relevo e interesse para quem decida refastelar-se na sua leitura; a história, em que são centrais as relações entre as personagens de Vladimir I. Lenine e a revolucionária Inessa Armand, consta de quatro partes: “A persuasão”, “A hegemonia”, “A revolução” e “Um mundo novo”. Na continuação inclui um “Posfácio”, de 4 páginas, datado em “Compostela, 2015, primavera a arder”, em que refere dados de relevo do processo de produção do texto, narrado por uma filha de Inessa Armand; e finaliza dando conta de “Referências básicas”, oito publicações editadas entre 1992 e 2015 (esta última data é também a da primeira edição galega de Ostrácia), em que se alicerçou para escrever este livro.
“Dum lado a História; doutro a intimidade. Dum lado, as palavras de ordem das ideologias políticas revolucionárias. Doutro, o orgasmo múltiplo e os fetiches do Domínio e a Submissão. Dum lado, as figuras de Lenine, Alexandra Kollontai, Nádia Krupskaia e, sobretudo, Inessa Armand. Doutro, a experiência de escrever sendo mulher e, portanto, interpretando como autora de textos vagamente feministas, reivindicativos mas também florais e românticos. Quando a escritora acha um fio narrativo singular –a vida da revolucionária bolchevique Inessa Armand–, experimenta certas contradições” assinala-se, à partida, na contracapa de Ostrácia, para dar conta ao leitor. Esse espaço, tão de relevo, finaliza pondo em destaque como “Se a militância fosse entrega e as ideologias tiverem que mudar o mundo, então Inessa Armand e a escritora devem entrelaçar-se para contar o nunca contado: que Política e Erótica vão da mão, que tudo na Política, como na cama, se reduz a bailar com o Desejo. Para a política não ser politiquinha e o Desejo não se conformar com desejinhos. Para fazermos habitável a Ostrácia”. Uma Ostrácia que ela define como “esse território para a liberdade e para a dissidência”
Teresa Moure ingressou na AGLP tempo depois de publicar Ostrácia. O seu discurso, “Identidades aracnídeas e verdades incómodas”2, evoca esta narrativa: nele defende como a mentira é um talento ao dispor de todas as pessoas, mas como o “cerne da minha identidade” é que “não posso conformar-me com a mentira”, apesar de que “quem escreve, mente” e “a narração é mentira elevada à condição de arte”, entre outras afirmações que também são de ajuda para entender esta exitosa Ostrácia.
1 Este boletim, como os restantes publicados pela AGLP, está disponível, de acesso livre e de graça, neste mesmo sítio web.
2 O discurso está publicado no número 10 do Boletim da Academia Galega da Língua Portuguesa, nas pp. 243-259; e na continuação, nas pp. 261-264, a resposta que teve do académico Mário Herrero Valeiro. Este boletim, como os restantes publicados pela AGLP, está disponível, de acesso livre e de graça, neste mesmo sítio web.
Salientou o Biqueira político, para além dos seus contributos literários, à Filosofia e à Psicologia, e a sua proposta de convergência ortográfica galego-portuguesa. A estes assuntos António Gil tem dedicado mais de três décadas de estudo.
AGLP 05/03/2025
Texto: J. Rodrigues Gomes; Produção: Xico Paradelo.
João Vicente Biqueira1 (Madrid, 22/10/1886- Lagoa-Bergondo, 29/08/1924) “sobretudo era um bom galego. Os problemas políticos e sociais da nossa Terra encontraram uma calorosa ressonância no seu peito generoso e ao lado dos nacionalistas galegos” afirma-se no livro Johán Vicente Viqueira. João Vicente Biqueira (1924-2024). Poemas e Ensaios, publicado na Através Editora em 2024, em edição que promoveu a Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP) e sob a responsabilidade de António Gil Hernández, agora presidente desta instituição. Os elementos dessa citação estiveram no centro da sua intervenção na Faculdade de Filologia da Universidade da Corunha o 25 de fevereiro, onde proferiu uma palestra sobre Biqueira e a Galiza federada. A sua presença deveu-se a um convite dos Professores Isaac Lourido e Roberto Samartim, e ao grupo de investigação ILLA, o que lhe ofereceu ocasião de conversar com estudantes das Filologias sobre a trajetória de Biqueira, com ensejo do centenário da morte deste vulto da Galiza.
Foto dos assistentes à palestra de 25 de fevereiro deste ano 2025 na Facultade de Filoloxía da UDC. Junto do professor Gil está o Prof. Isaac Lourido.
António Gil Hernández investiga sobre este intelectual galeguista há mais de três décadas. Em 30 de junho de 1994 participou num ato literário sobre Biqueira na Casa de Cultura do Concelho de Bergondo, sob presidência do seu filho, o Eng. Jacinto Viqueira Landa e esposa; foi uma atividade em que se honrou a memória de Biqueira no septuagésimo aniversário da sua morte. Já antes se tinha interessado Gil por este vulto, e continuou com novos contributos nos anos seguintes. Para além do pensamento político, assunto em que centrou esta palestra na Universidade da Corunha, também trabalhou sobre os contributos de Biqueira à Literatura Galega, onde destaca, entre outros assuntos, por ser um adiantado do movimento do Neo-trovadorismo, anos antes de Bouza Brei, quem está considerado hoje o seu iniciador; no Campo da Psicologia tem destaque por ser introdutor da Psicologia Experimental na Península Ibérica, após ter tido relação direta com W. Wundt; salientam igualmente os seus estudos sobre o bilinguismo e a psicologia da educação; e conta também com uma importante obra filosófica. Biqueira também foi um dos primeiros defensores da convergência ortográfica galego-portuguesa. E todos eles são assuntos do maior relevo e de atualidade, assinala Gil Hernández.
A respeito desta recente intervenção na Faculdade de Filologia corunhesa, manifesta António Gil: “Entendi que a palestra deveria ser levada como conversa com as pessoas assistentes mais do que como conferência quase protocolária. Nem o tempo programado, entre as 13.00 e as 14.00 horas, nem o previsível interesse do público aconselhavam o contrário. Comecei dando uma leve notícia sobre a pessoa e obra de Biqueira, que foi Catedrático do Instituto de Secundária Eusébio Da Guarda, presidente das Irmandades da Fala na Crunha e mais participante da Assembleia Nacionalista de Lugo. Continuei com a leitura do artigo ‘O dia de mañán’, publicado postumamente, em 6 de decembro de 1924, no semanário socialista Justicia Social, órgão da USC (Unió Socialista de Catalunya)”. Esclarece António Gil como neste artigo Biqueira se declara republicano e federalista, e ressalta o seguinte excerto:
“No crítico momento presente conviria que os elementos que somos partidarios de un novo federalismo, en que nos achamos arredados os uns dos outros, entrásemos en comunicación. Para elo o centro poderia ser o valioso nucleo que integra Justicia Social. Nesta comunicación concretaríanse as concepciós que o dia de mañan serian un feito. [...] Que estas liñas de verdadeira simpatia pol-os meus amigos cátalas, poidan espertar o interés, en toda España, por unha meditación sobre dun futuro estado republicano federal socialista ou social, meditación que si é fonda e sinceira, trocarase o día de mañán en realidades”.
Após diversos comentários a esse e outros textos biqueiranos, citou também o seguinte trecho da conferência "Divagações enxebristas":
“A Humanidade, para cumprir todas as promessas que leva no seu seio ou, ainda melhor, para criar tudo o que leva em potência (pois, antes de ser, onde jaz?), desfaz-se em Nações. Já a vida precisa, para ser, do princípio de individuação, a saber, de ser como indivíduo ou concreções de indivíduos. Idêntico princípio é o da evolução humana que também é cósmica, quer dizer, uma parte do processo universal. Como vedes, o meu Nacionalismo tem uma base cósmica e metafísica. A Humanidade desfaz-se em Nações, porque precisa órgãos. As Nações, pois, são órgãos da Humanidade. Elas fazem tudo o que é factível em cada tempo. Não num momento de tempo, mas no se sucederem os tempos. E aqui, também, cada uma tem a sua missão; e quando a sua missão acaba, morre! Mas a missão da Galiza chega e por isso ressurge”.
Esta citação é da Obra seleta de Johán Vicente Viqueira (página 72), que António Gil Hernández publicou no ano 2011 na coleção Clássicos da Galiza [nas Edições da Galiza, de Barcelona], promovida pela AGLP. Também é autor de um longo artigo “Johán Vicente Viqueira e a Comunidade Lusófona da Galiza”, nos boletins números 10 e 11 da AGLP, correspondentes aos anos 2017 e 2018 [estes boletins estão disponíveis, de acesso livre e de graça, neste sítio web da AGLP].
Esta intervenção na Universidade da Corunha finalizou com um breve colóquio sobre Biqueira pensador e político, e também sobre o seu poetar. “Muito agradeço aos professores Lourido e Samartim, ao grupo ILLA e à Faculdade as facilidades para realizar o ato-conferência sobre Biqueira”, sublinhou o presidente da AGLP.
1 Gil Hernández tem utilizado indistintamente Viqueira e Biqueira: Viqueira por ser “a denominação por ele usada”, e para “respeitar o desejo expresso da família”; mas Biqueira, por considerar que dever ser assim mais corretamente grafado este apelido “com B inicial, por ser derivado de bico”, segundo esclarece em Obra seleta de Johán Vicente Viqueira (Gil Hernández, 2011, página 13).
Paulo Mirás, numerário da AGLP, é o diretor editorial da publicação, que sai do prelo da Através com um “Prólogo” do professor José Luís Rodríguez
AGLP 01/03/2025
Texto: J. Rodrigues Gomes; Produção: Xico Paradelo.
A Estilística da Língua Portuguesa, do filólogo, ensaísta e professor português Manuel Rodrigues Lapa (Anadia, 1897-1989) “mantém características únicas que a tornam especial e insubstituível. A sua abordagem à língua e ao estilo continua a ser um marco, oferecendo detalhes valiosos que não se encontram noutros trabalhos. Esta reedição é uma homenagem ao seu legado e uma oportunidade para as novas gerações descobrirem uma obra que moldou o estudo da língua portuguesa”, afirma o professor Paulo Mirás, numerário da Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP) e diretor editorial da primeira edição galega desta obra clássica. A publicação sai agora do prelo da editora Através, de Santiago de Compostela, coincidindo com o 80 º aniversário da primeira edição na Seara Nova de Lisboa no ano 1945. Esta é uma edição que promove a AGLP.
Em vida de Rodrigues Lapa contou com até onze edições, em Portugal e no Brasil. Esta nova edição galega acompanha-se de um prólogo de José Luís Rodríguez, professor catedrático da Universidade de Santiago de Compostela, quem o conheceu e colaborou estreitamente com ele. Rodríguez põe em destaque os trabalhos de Rodrigues Lapa sobre a Galiza e lembra como, já desde 1933, aborda a política do idioma, em que “vê três modalidades: a galega, a lusitana e a brasileira, às quais muito mais tarde haverá de acrescentar pelo menos a africana ou africanas, após a independência das antigas colónias. E propõe avançar na unificação ortográfica, sempre que possível, tanto com o Brasil como com a Galiza”.
O livro editado pela Através tem 230 páginas, incluído um “Índice analítico” de autores, matérias e palavras. Para além do antes citado “Prólogo”, o volume consta de 15 capítulos: quatro deles dedicados ao vocabulário português, e outros sobre a fraseologia, a formação das palavras, o artigo e os pronomes, o adjectivo e os nomes, os pronomes, dois capítulos sobre o verbo, um específico sobre a concordância, e os três últimos sobre palavras invariáveis.
Os dois primeiros lançamentos do livro estão agendados para o 7 de março, no Porto, na UNICEPE, cooperativa livreira de estudantes do Porto [na Praça de Carlos Alberto 128 A] às 18.00 horas, com a intervenção de Joana Matos Gomes, da Universidade do Porto, e Paulo Mirás; e o 4 de abril na livraria Centéssima Página, de Braga, pelas 18.30 horas, com a presença de Álvaro Iriarte Sanromán, professor da Universidade do Minho, com José Luís Rodríguez e Paulo Mirás.
Literatura galega em diálogo com as literaturas lusófonas
Na Estilística da Língua Portuguesa, para além de estudar o estilo de grandes nomes das literaturas lusófonas (Eça de Queirós, Machado de Assis, Camões, Guimarães Rosa, Camilo Castelo Branco, Mário de Andrade, Monteiro Lobato e mais), Rodrigues Lapa também se ocupa do estilo de escritores da Galiza, como Castelao, Carvalho Calero, Novoneyra, Otero Pedrayo, Cabanillas, Blanco Amor, Fole ou Xavier Alcalá.
Como exemplificação do tratamento de autores da Galiza, no segundo dos capítulos que dedica ao vocabulário, ao falar do eufemismo, após citar o caso do conselheiro Acácio, famoso personagem de Eça de Queirós, acrescenta Rodrigues Lapa (p. 33): “Até os ladrões entre si usam o eufemismo, como aquele ratoneiro duma novela de Castelao, que suavizou o termo roubar em apanhar”, acrescentando um trecho de Os dous de sempre.
“Devemos valorizar o interesse e o esforço de Rodrigues Lapa como um trabalho visionário que construía pontes além das nossas fronteiras, tanto dentro como fora da Europa. A sua obra serve para nos abrir os olhos e mostrar que não estamos sós no mundo: partilhamos uma língua comum que deve ser dignificada e celebrada. Para Lapa, os nossos escritores fazem parte de um universo linguístico e cultural mais amplo, onde o galego e o português se complementam e enriquecem mutuamente”, afirma Paulo Mirás.
“Ele via a língua como um instrumento vivo, cheio de recursos e estilo, capaz de crescer e evoluir com os seus utilizadores. A sua defesa da ortografia portuguesa como algo tão nosso quanto deles deixa claro o seu ponto de vista: a língua é um património partilhado, que transcende fronteiras e se fortalece na sua diversidade. Rodrigues Lapa não só nos ensinou a valorizar a nossa língua, mas também a vê-la como um elo de união e identidade no mundo lusófono”, acrescenta o diretor editorial do volume.
“Um referente incontornável”
Paulo Mirás frisa que, para a Galiza atual “Rodrigues Lapa continua a ser um referente incontornável sobre como escrever bem na nossa língua. O professor português sempre considerou os autores galegos como exemplares para Portugal e o Brasil, vendo o galego como uma extensão natural da língua portuguesa. A Galiza ocupava um lugar especial no seu coração, algo que fica evidente nas suas inúmeras viagens à nossa terra e na sua dedicação ao estudo e promoção da cultura galega. Esta relação profunda com a Galiza materializou-se em obras como os Estudos Galego-Portugueses. Rodrigues Lapa não só valorizou a nossa língua, mas também a integrou num contexto mais amplo, reforçando a sua importância como património partilhado e vivo”.
Paulo Fernandes Mirás assume a partir do próximo número a direção da publicação, na qual esteve à frente desde os inícios António Gil Hernández.
Mais de 250 páginas e 22 trabalhos integram o número 15º do Boletim da Academia Galega da Língua Portuguesa (BAGLP), de periodicidade anual. Saída recentemente do prelo, a publicação está acessível já, na sua versão digital, no sítio web da Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP), https://www.academiagalega.gal/ e também disponível em edição impressa.
O volume principia com um “Editorial e despedida” (pp. 7-8), que assina o professor António Gil Hernández, atual presidente da AGLP e diretor do BAGLP desde os inícios, em 2008. Neste tempo dirigiu os 15 números anuais, mais cinco anexos. «Podemos estar satisfeitos e sermos otimistas, porque o BAGLP foi capaz de acompanhar as atividades da Fundação Academia Galega da Língua Portuguesa e mesmo a vida académico-universitária das pessoas membros de número, das pessoas académicas correspondentes e das pessoas amigas intelectuais e ativistas, tanto da Galiza e doutras nações do Estado-Reino bourbónico de España, quanto da LUSOFONIA toda», afirma. O também professor Paulo Fernandes Mirás exercerá como o novo diretor, já desde o próximo volume.
Estudos de especialistas da Galiza, do Brasil e do País Valenciano
Na continuação, a parte principal da publicação, oferece seis estudos, que se prolongam entre as páginas 11 e 150. Estão assinados os quatro primeiros por José-Martinho Montero Santalha, José-Manuel Barbosa, Joel R. Gômez e Alexandre Banhos Campo, especialistas da Galiza; e os outros por Evandro Vieira Ouriques, do Brasil; e por Josep J. Conill, do País Valenciano.
No primeiro deles, “A contagem silábica dos versos na Galiza” (pp. 11-36), José-Martinho Montero Santalha ocupa-se dos dois sistemas que os estudos literários nas línguas românicas empregam para a contagem das sílabas dos versos, o oxitónico e o paroxitónico. Defende «a conveniência de que também na Galiza, como território de língua portuguesa que é, se adote o sistema habitual na área lusófona, isto é, o oxitónico, que conta só até a última sílaba tónica do verso». Defende a sua argumentação utilizando produções líricas de Firmino Bouça Brei, Manuel-Luís Acunha, Salvador Golpe, Rosalia de Castro, Álvaro Cunqueiro, Curros Henríquez, as Cantigas de Santa Maria de Afonso X, a poesia popular, o padre Sarmiento, e de Amado Carvalho, Martim Padrozelos, Eduardo Pondal, Martinho Torrado, Leiras Pulpeiro, Ramom Cabanilhas, Aquilino Iglésia Alvarinho, Francisco Anhom, Nicomedes-Pastor Díaz, Noriega Varela, e Labarta Posse.
José-Manuel Barbosa, em “Alguns apontamentos sobre Prisciliano” (pp. 37-60) traslada-nos aos tempos em que a Galiza era a Galécia extensa e priscilianista. Apresenta algumas questões duvidosas e esforça-se por propor soluções a respeito da origem de Prisciliano, bem como faz um pequeno roteiro espaço-temporal ao redor da elaboração do mito da presença e enterramento de Santiago o Maior na Galiza. São assuntos recorrentes no tratamento de diversos especialistas e de continua atualidade na Galiza, os quais tenta iluminar com este estudo.
Joel R. Gômez, em “Funções e percursos das sete décadas de produções poéticas de Ernesto Da Cal” (pp. 61-83) alicerça-se nos aproximadamente 150 produtos de poesia publicados por Ernesto Guerra da Cal, que referencia, nos seus quase 83 anos de vida, incluídas produções póstumas e inéditas. Da Cal utilizou 3 línguas e 9 assinaturas diferentes e difundiu essas produções em 12 países, na procura de diferentes funções e percursos. Essa dispersão dificulta o seu conhecimento e estudo, que este trabalho pretende esclarecer, para facilitar a sua edição crítica.
Alexandre Banhos Campo, em “Porque Portugal não se chama Galiza?” (pp. 85-94) lembra como Portugal não foi reconhecido como reino pelo papado até 1179. Com antecedência foram acontecimentos de relevância como a batalha de São Mamede, que teve lugar em 1128, coincidindo com a altura na qual o rei da Galiza Afonso VII estava no processo de gerir a incorporação na sua pessoa das coroas de Leão e Castela; ou o tratado de Samora de 1143, pelo qual o rei Afonso VII da Galiza, que queria ser chamado e tratado de imperador, assinou o tratado com o seu primo Afonso Henriques, onde lhe concedia de facto a independência do reino da Galiza, a Portugal, sempre que como rei aceitasse a sua preeminência como imperador.
Evandro Vieira Ouriques, em “A Doutrina do Mel, a condição comunicacional e a verdade. Sobre a requalificação clínica da capacidade de julgar” (pp. 95-115) traz à nossa consideração a «íntima relação de alguns dos princípios fundamentais da filosofia indiana», que, como investigador, vem «desenvolvendo ao longo dos anos sob a denominação de Terceira Estrutura da Verdade». O artigo sustenta a emancipação psicopolítica de psiquismos e de redes de psiquismos, as instituições e justifica a denominação da «doutrina do mel».
E Josep J. Conill, em “Lasciate ogni speranza: da ‘normalización’ à língua nua” (pp. 117-146) reflete sobre «a situação terminal a que o catalão dos valencianos tem chegado após o fracasso da ilusão normalizadora imperante desde a Transición». É reflexão que, em valorização de António Gil Hernández, «cumpre ler também em chave galega, galaico-española e galego-portuguesa». Conill relata «um panorama cheio de incertezas [da língua autóctone do País Valenciano], que pode desembocar na sua liquidação definitiva nos fins deste século». Fronte a esta eventualidade, aponta para «a necessária articulação de uma consciência sociolinguística da condição terminal, capaz de se responsabilizar com lucidez da gravidade da situação e emanada da vivência liminar da língua nua, enquanto experiência da exclusão quotidiana dos falantes do catalão no País Valenciano».
Discursos das tomadas de posse de três académicas e um académico
Na parte de “Instituição” (pp. 149-218) a maioria do espaço deste número 15 º do BAGLP é para os discursos das tomadas de posse de três académicas, Adela Clorinda Figueroa Panisse, Maria Castelo Lestom e Joana Magalhães; além do académico Pedro Casteleiro. A eles deu o recebimento em nome da AGLP José-Martinho Montero Santalha.
O discurso de Adela Figueroa, subordinado ao título “Uma língua, uma cultura, uma civilização: Galiza na lusofonia” (pp. 163-178) salientou o interesse de se ter aprovado por unanimidade no Parlamento da Galiza a denominada Lei Paz Andrade, para aproveitar os vínculos da Galiza com a Lusofonia. Afirma que «Eu sei que, na atualidade a maioria dos vultos que se exprimem em língua galega, quer escritoras quer políticas, consideram que a opção reintegracionista, a opção internacional para a nossa língua, é a acertada. Na sua maioria estas pessoas não escrevem na norma do galego comum para os países de fala lusófona ou de galego moderno, por diversas razões, mas não por beligerância contra esta norma. Nalguns casos é por ignorância, outros por comodidade outras vezes por insegurança. Mas sempre por temor». Adela Figueroa, quem representou à Galiza em 1986 (juntamente com Isaac Alonso Estraviz e José Luís Fontenla) no encontro internacional celebrado no Rio de Janeiro para procurar um Acordo Ortográfico para os países de língua portuguesa, alicerça-se em contributos de personalidades tão diversas como Bernabé João, Fausto, Zeca Afonso, Sandra Manuel, André Pena Granha, Angel Carracedo, Bryan Sykes, Rodrigues Lapa, Arnaldo Trindade, Beto Souza Pinto, Marica Campo, Benito Eládio Rodríguez Fernández, Vendana Shiva; bem como contributos dela própria, um de poesia erótica e outro respeitante a Rosalia de Castro, para defender no final que «Na Galiza temos um rico corpus cultural. Rosalia de Castro é emblemática. Ela é a primeira feminista, a primeira nacionalista galega a primeira ecologista».
Maria Castelo Lestom referiu-se a “Tecedoras de redes: A mulher e a língua no mundo pós-petróleo” (pp. 179-183). Neste contributo salientou que «Como militante, ativista e divulgadora tanto do teto do petróleo quanto da importância da nossa língua se imbricar no sistema linguístico que lhe corresponde pretendo é manifestar a importância do conceito de rede social, não entendida esta no sentido atual de rede com base informática, mas como conexão de comunidades e sociedades, de pessoas».
Joana Magalhães, na sua “Palestra” (pp. 185-190) ressaltou como «Se não estou em erro, esta tomada de posse coincide com a primeira vez que se realiza de forma coletiva, mostrando uma diversidade de vozes, pensares e saberes, representando outros valores fundamentais para a convivência de múltiplas identidades, e que tão bem carateriza a língua portuguesa». Também chamou a atenção «para o potencial da ciência cidadã para a resolução de desafios transfronteiriços, como podem ser aqueles que afetam zonas florestais, sistemas hídricos, espécies protegidas, ou mesmo, e porque não, de integração linguística». Joana Magalhães salientou assim mesmo na intervenção como a sua «experiência-vivência colectiva na Galiza, o meu pensamento, investigação, prática e ação têm sido permeáveis a valores de inclusão e diversidade, interdisciplinaridade, e também a processos de descolonização e desconstrução do que é ser cientista, do processo de geração de conhecimento, da objetividade da ciência. E posso afirmar com segurança, fazem de mim, uma cientista mais aberta, mais consciente do que a rodeia e espero, espero poder retribuir com o meu trabalho e a minha voz».
Pedro Casteleiro intitulou o seu depoimento “Justiça, verdade e beleza” (pp. 191-194). Afirmou que «Fazendo balanço dos anos, das décadas vividas, não posso recordar um momento em que, independentemente das circunstâncias, o que realmente me fizesse feliz deixasse de girar em torno disso que podemos chamar Justiça, Verdade e Beleza. Quando digo ‘me fizesse feliz’ digo me nutrisse, a um nível muito essencial, tão essencial como o pão quotidiano». [...]«A minha vida gira em torno a uma paixão, a uma necessidade de nutrição, que se plasma na procura de Justiça, Verdade, Beleza e que, por isso, é que eu devo de estar fadado a, com mais ou menos títulos, ser o que sou: jurista, um filósofo –pragmático– e um filólogo de coração –um amante apaixonado do fenómeno linguístico e, especialmente, daquilo que concerne à nossa língua». Casteleiro reprovou «a vacuidade que ocupa um lugar predominante nas redes sociais contemporâneas» e finalizou com estas palavras: «Continuarei, prometo, exercendo a tríplice função, de jurista por título, de filólogo por amor e por necessidade a de filósofo prático. E, prometo, como o bom ladrão, deixarei neste trabalho um rasto de silêncio, prenhado de esmeraldas».
No discurso de resposta e recebimento dos novos membros e tomadas de posse, José-Martinho Montero Santalha, que foi o primeiro presidente da AGLP, indicou que «Ainda outras duas novas académicas numerárias eleitas recentemente deveriam ser recebidas também hoje: Antia Cortiças Leira e Iolanda Rodrigues Aldrei. Por compromissos pessoais, não podem estar presentes neste ato, de maneira que o seu recebimento público fica para outra ocasião. Com todos estes nomes torna-se transparente o esforço da nossa Academia por corrigir o desequilíbrio entre o número de mulheres e homens: um desequilíbrio que, não por ser tradicional e ainda comum em muitas esferas da nossa sociedade, deixa de ser injusto e, portanto, intolerável». Disse-lhes Montero Santalha às novas académicas e académico que «Tendes desde agora uma nova casa e até quase uma nova família. Detrás dela está, em primeiro lugar, a longa série de mestres que assim na Galiza como em Portugal, no Brasil e nos outros territórios de língua portuguesa defenderam a unidade linguística galego-portuguesa, e, em segundo lugar, estão as muitas pessoas galegas de hoje que se sentem parte da Lusofonia. A AGLP convida-vos a exercer e desenvolver nela as vossas capacidades, as vossas ideias e propostas e as vossas iniciativas, em serviço da língua que nos une e nos configura como pessoas. Em nome da Academia digo-vos mais uma vez: bem-vindas e muito obrigado!».
O capítulo de “Instituição” inclui também um relatório (pp. 149-160) das onze atividades que realizou em 2022 a AGLP, um ano difícil, lembra, por causa das dificuldades da pandemia da covid-19. Informa (pp. 161-162) da comemoração, por vez primeira, do “Dia da Academia”, agendado em 15 de dezembro de 2022 em Compostela, na sua sede da Casa da Língua Comum. Acrescenta a “Laudatio in honorem Isaac Alonso Estraviz” (pp. 197-203), proferida por Maria do Carmo Hernríquez Salido, professora catedrática da Universidade de Vigo o dia 18 de julho de 2022, no reconhecimento público a Estraviz, numerário da AGLP, com a Medalha de Ouro de Ourense por parte da Deputação Provincial de Ourense. Inclui depois o artigo “A nossa língua: Mil anos de história, 8 séculos de escrita: o testamento de 1214 de Dom Afonso II”, (pp. 205-215), assinado por José-Martinho Montero Santalha; e finaliza com uma “Necrológica de Adriano Moreira (1922-2022)”, nas pp. 217-218, em que se lembra este vulto da intelectualidade e a política portuguesa, também membro correspondente da AGLP, falecido em 23 de outubro de 2022.
Referência de seis publicações
Este volume 15º do BAGLP finaliza com a referência de seis publicações. São estas: “Remover Roma por Santiago. O Conflito entre Roma e Santiago à Luz da Historia Compostelana”, de Henrique Egea (pp. 221-225), de que se ocupa José Manuel Barbosa, académico numerário da AGLP; “Teoria das Ruínas”, livro de poesia de Alfredo Ferreiro Salgueiro (pp. 227-230), que valoriza o professor e crítico José António Lozano; “Tempo Tardade”, narrativa de Raquel Miragaia (pp. 231-233) e “A unidade e a harmonia da realidade. Complexidade e ecoloxía”, estudo de Victorino Pérez Prieto (pp. 239-247), dois livros resenhados por José-Martinho Montero Santalha, académico numerário da AGLP; “Matria. Poesia para a terra”, volume de Adela Figueroa Panisse, académica numerária da AGLP (pp. 235-238), de que fala Stela Strada; e “Manual Galego-Português de História”, de Manuel Lopes Zebral (pp. 249-249) de que escreve António Gil Hernández, académico numerário da AGLP.
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AGLP 01/01/2025
Texto: J. Rodrigues Gomes; Fotografias: Raquel Pérez Rodríguez; Coordenação Linguística: Antia Cortiças Leira; Produção: Xico Paradelo.
A versão eletrónica do Dicionário Estraviz (ou também Dicionàrio e-estraviz, acessível em www.estraviz.org) ultrapassa os 151.400 verbetes, incorporando léxico da Galiza e da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) ao completar 20 anos da sua presença na Internet. Promovido pelo lexicógrafo Isaac Alonso Estraviz, membro numerário da Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP; em cujo sítio web, academiagalega.gal está também disponível, como dicionário de referência), esta obra começou o seu andamento no dia primeiro de janeiro do ano 2005 no Portal Galego da Língua (www.pgl.gal), web oficial da Associaçom Galega da Língua (AGAL). Em finais de junho do 2009, quando oferecia 121.505 entradas, estreou domínio próprio na rede e permitiu também pesquisar léxico na ortografia ILG-RAG. Em meados de julho de 2011, quando chegava a 126.319 termos, inaugurou uma versão em linha para telemóveis. E desde 2014 apresenta a versão atual, adaptada ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Este dicionário, o mais amplo dos editados na Galiza, é um emblema do movimento que, na Galiza, promove a confluência da língua autóctone com a da CPLP, e acompanha-se do lema Uma explosão de luz no universo da língua.
“Trabalharei neste dicionário enquanto estiver vivo”, afirma Isaac Estraviz, quem no próximo 26 de janeiro de 2025 comemorará o seu 90º aniversário. Desde os inícios teve como colaborador principal a Vítor Manuel Lourenço Peres, quem em 2005 coordenava o Portal Galego da Língua, e que continua a introduzir novos termos, gerir o funcionamento na rede e mesmo oferece sugestões e propostas de novas palavras para incorporar e aumentar o léxico: “A implicação e o apoio do Vítor Lourenço foi e é imprescindível”, admite Isaac.
Mais de meia vida de dedicação, estudo e pesquisas, desde 1979
Num primeiro momento, o Dicionário Estraviz (ou Dicionário e-estraviz) “mesmo tinha jogos, que fazia o professor Valentim Fagim e que, quando foi crescendo, se suprimiram. Para mim eram uma coisa fenomenal, fantástica, porque ajudavam muito para trabalhar com o léxico. Este dicionário eletrónico fez-se partindo de um de três tomos, que tinha publicado anos antes na editora Alhena (veja-se infra). Na Internet aparecem as pessoas que colaboraram comigo para materializar o projeto pois, à partida, houve de passar o léxico de aqueles três tomos para a normativa ortográfica da AGAL”. Naquela altura presidia a AGAL Bernardo Penabade, quem em 2013 publicou na editora Através um modelar livro-entrevista com Isaac Alonso Estraviz, imprescindível e muito recomendável para conhecer a sua biografia e trajetória, e que dedica um capítulo importante ao dicionário.
O Dicionário Estraviz é resultado de um trabalho continuado, com contribuições constantes. “Agora acho que já não há muitas palavras pendentes, embora se continuem a acrescentar. No dia 2 de novembro de 2024, por exemplo, ainda foram introduzidas 20 entradas novas. E mais algumas nos dias seguintes. Também há emendas e modificações; lembro um caso em que se acrescentou só uma vírgula. Acho que é preferível que faltem palavras a incluir algumas mal”, esclarece Isaac.
“Os últimos anos foi introduzido muito léxico do Vocabulário Ortográfico Comum da Lusofonia, com a colaboração de um especialista brasileiro, Rodrigo Wiese Randig, que atualmente mora em Brasília. Em muitos dos verbetes que ele forneceu identifica-se o país de procedência, são Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e mais da CPLP; aparecem singularizados, com as definições próprias desses países, e costumam ser de plantas, animais e diversos elementos caraterísticos de cada uma dessas realidades particulares. É por isso que se localizam, no resto do dicionário não aparece onde se utilizam as palavras, só essas de países africanos. E isso também contribui para que seja um dicionário mais completo”, acrescenta.
Além disso, e segundo o depoimento de Estraviz “introduziram-se nomes dos pássaros de todo o mundo. Isso foi consequência da Tese de Doutoramento Os Nomes Portugueses das Aves de Todo o Mundo: Projeto de Nomenclatura, defendida no ano 2021 por Paulo Domingos Paixão, um especialista português que mora em Bruxelas. Depois de falar com ele, as entradas foram-me enviadas durante mais de um ano por Paulo Correia (Lisboa) e Jorge Madeira Mendes (Porto). Ofereceram-me a mim, à Priberam e à Infopédia incluir esse léxico. No meu dicionário consegui introduzir por volta de 11.000 aves de todo o mundo. Há outros especialistas, como o galego Ramiro Torres, que tem recolhidas muitas palavras, que de quando em vez publica no Nós Diário, com quem falei e concordou em que podia valer-me das suas propostas, se via novidades de interesse, o que não sempre acontece. Também há muitas que entram por sugestões de particulares, que estudo, e às quais aceito ou renuncio”.
O Dicionário Estraviz prosperou após mais de meia vida de dedicação, estudo e pesquisa. Segundo as suas próprias explicações: “Comecei a trabalhar em 1979. Estivera um ano em Lisboa, para fazer a Tese de Doutoramento sobre variantes lexicais galegas e portuguesas, com uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian, que era de maior quantia que outra que me davam na Universidade Complutense madrilena. Queria fazer um estudo comparativo entre textos medievais da parte galega e da portuguesa, para assim elaborar uma gramática e depois dedicar-me a um grande dicionário. Como naquela altura não havia os meios que temos hoje, perdia muito tempo na procura do léxico de ambos os lados. Ainda conservo todo o material que consegui. Quando aquela ajuda finalizou tentei conseguir outra da Fundación Barrié para continuar a investigação. Da Fundación Barrié responderam-me que era competência da Universidade de Santiago de Compostela (USC), e afinal não me foi concedida. As coisas não correram como esperava e foi abandonado aquele primeiro projeto por falta de meios; mas entreguei-me em cheio a trabalhar para um dicionário”.
O Dicionário Nos Ilustrado (1983), com louvor de Carvalho Calero
De Lisboa regressou para San Fernando de Henares, em Madrid, onde tinha a sua morada. Lá foi onde o editor e livreiro Ramom Akal González lhe propôs elaborar um dicionário. Assim o memora Isaac: “Já tinha trabalhado antes com Akal, como tradutor e adaptador do Livro de São Cipriano, no primeiro mapa escolar em galego e outros mais, e pediu-me que fizesse um dicionário Galego-Castelhano. Respondi que isso não, mas que podia fazer um dicionário galego em galego, proposta que apoiou a sua companheira, Cristina. Naquela altura surgiu a normativa ortográfica para a língua galega, que promoveu e aprovou a Administração Pré-Autonómica em 1980, elaborada por uma Comissão Linguística presidida por Ricardo Carvalho Calero e que tinha como secretário José Luís Rodríguez Fernández. Impus como condição que se empregasse essa normativa. Mas eu só não podia fazer um dicionário. Então fiz várias viagens à Corunha, Ferrol e Santiago de Compostela, para buscar colaboração. Acabavam de sair os primeiros licenciados e licenciadas em galego-português da USC, e vários aceitaram colaborar; embora houve alguns que depois não tivessem feito nada”.
Porém, aquela iniciativa também resultou em nada: “O maior problema era que fazia as viagens, trabalhava e tinha despesas, e o Akal não mas pagava. Então passou por Madrid o Bieito Ledo e ofereceu-me fazer o dicionário para a editora Galaxia. Combinámos publicá-lo primeiro em fascículos, depois em volumes. Mas de novo não saiu nada, por discrepâncias a respeito da normativa ortográfica a utilizar, e afinal rescindimos o contrato. Ramón Piñeiro, que fora partidário de uma ortografia comum a galegos e portugueses, da qual ele punha como exemplo os livros de Guerra da Cal publicados por Galáxia, ao não fazer parte da Comissão Linguística do governo da Pré-Autonomia, passou-se à normativa do Instituto da Língua Galega e propôs-me que fosse falar com Constantino García, um senhor a quem eu nunca ouvira falar em galego. Daí surgiu a ruptura”, esclarece.
Mas Estraviz continuou a trabalhar, completou a primeira versão de um dicionário galego, e apareceu a oportunidade de o publicar. Aconteceu em 1983, na empresa editora Nos, sediada na Corunha, que pertencia a Francisco Seijas Fornos, e que nos anos finais da década de 1970-1980 e inícios da seguinte tinha algum sucesso com o livro galego. Foi assim que saiu dos prelos, sob a chancela da Nos (“É Nos, não Nós: Nos é a segunda sílaba de Fornos, não tem nada a ver com Nós”, adverte Isaac) o Dicionário Nos Ilustrado, que deveria conter “mais de 80.000 verbetes, em 5 volumes, onde iam as entradas na ortografia do Governo do Pré-Autonomia e entre parênteses na forma etimológica. O primeiro volume terminava em champulheiro”, esclarece Isaac.
Assim, sob a iniciativa, direcção e responsabilidade de Isaac Alonso Estraviz, na elaboração deste dicionário colaboraram Luís Cambeiro Cives, Xosé Manuel Enríquez, Xosé G. Feixó Cid, Manuel Ferreiro Fernández, Maria do Carmo Garcia Pereiro, Anxo González Guerra, Xosé Luís Grande Grande, Vitória Ogando, Tareixa Roca Sánchez e Xavier Rodríguez Baixeras, “alguns, antigos discípulos” de Carvalho, como ele declara no “Prólogo” (p. IX). Nesse “Prólogo”, Ricardo Carvalho Calero salientava o acertado do trabalho e mesmo a singularidade da metodologia utilizada, pois segundo destacava o primeiro catedrático de Língua e Literatura da Universidade de Santiago de Compostela (Carballo Calero, 1983) “este dicionário serve-se do galego para explicar o galego. [...] propriamente nengun ensaio anterior se propuxo o mesmo plano, nen en estrutura nen en comprensión, que se propón este dicionário”. Ressaltava a “competéncia científica” das pessoas elaboradoras desse dicionário, além da “exaustiva colleita de dados” que tinham realizado, bem como o “seu verdadeiro entusiasmo, pois exige un afinco minucioso e un esforzo de plasmazón unitária, que só está disposto a oferecer o que ama sinceramente o objeto do seu labor. Este sincero amor está presente en cada página deste corpus, que ofereceria demasiadas dificultades práticas a quen acometese o labor sen entusiasmo ardente, até impulsá-lo a abandonar tan árdua empresa”. E finalizava aquele prólogo Carvalho Calero saudando o aparecimento do primeiro dos cinco volumes previstos, “inspirado polos mesmos ideais que motivaron tanto do meu esforzo pasado” e que julgava “obra tan útil e formosa”.
Do Dicionário Nos Ilustrado publicou-se só esse primeiro dos cinco volumes anunciados, porque “o editor de Nos meteu-se em muitas empresas ao mesmo tempo e não pôde com tudo. Em fevereiro-março de 1984 tinham de estar publicados os 5 volumes, mas o projeto fracassou. Depois houve mais gente a quem lhes interessava o dicionário, mas na normativa para a língua galega do ILG-RAG, e eu por isso não passava. Mesmo vieram umas pessoas de Saragoça, e uma editora catalana, que perguntaram para publicá-lo, mas não chegamos a um acordo”.
Um Dicionário da Língua Galega em três tomos (1986), na Alhena.
Foi um período complicado, reconhece Isaac. E memora: “Como o tempo estava a correr, decidimos criar uma nova editora, Alhena. E, sem o pensar, vi-me como autor e editor de um dicionário com um custo superior a vinte milhões de pesetas1, estando na miséria!!! Envolveram-se na empresa o diagramador, Dámaso Gutiérrez Ovejero, e o fotocompositor, António Montero. No entanto, os membros responsáveis da editora éramos três: Nieves, uma licenciada em Românicas, natural de Málaga, que era a mulher de Dámaso Gutiérrez Ovejero e estava no desemprego; um senhor de Toledo reformado, sogro do fotocompositor, que foi quem contribuiu com as primeiras 100.000 pesetas para poder pôr em andamento a empresa; e mais eu, que levava dois anos no desemprego. Entraram em jogo também outras pessoas que deviam dinheiro ao fotocompositor. Aquele Dicionário da língua galega organizou-se num tamanho superior ao da editora Nos, com menos ilustrações, e em três volumes. Saíram os três a finais de agosto e primeiros de setembro de 1986”.
Desde setembro de 1986 estavam prontos e disponíveis os três volumes, e vendiam-se juntos. O primeiro deles, com as letras A-D, chegava até a página 949; o segundo, até a página 1.871; e o terceiro, que incluía as letras finais, entre o O e o Z, finalizava na página 2.749. Também oferecia em apêndice os paradigmas dos principais verbos irregulares, palavras e locuções estrangeiras usuais, nomenclatura geográfica ou datas históricas da Galiza. “A fotocompositora do dicionário estava situada no bairro de Usera, em Madrid; e a mim ficava-me um tanto longe, porque continuava a morar em São Fernando de Henares. A edição incorporava mais de 95.000 entradas. Na primeira semana recuperou-se bastante dinheiro, seis milhões de pesetas, mas como o fotocompositor devia dinheiro por toda a parte esse dinheiro entrava e não se via. Afinal, e para evitar entrar na cadeia por dívidas, malvendeu bastantes coleções ao distribuidor Manuel Ferreiro, natural de Lugo e com domicílio em Santiago. Vendeu-lhe os três volumes a 5.000 pesetas, quando a venda ao público era a 25.000. Dos exemplares que eu vendia, enviava parte do dinheiro para o fotocompositor; outra parte para os colaboradores; e quem não cobrou nada pelo dicionário fui eu. Foi mesmo assim”, ressalta o ilustre lexicógrafo e lexicólogo ao memorar aquele tempo.
Em Alhena publicaram-se ainda vários livros, “entre eles o meu Estudos Filológicos Galegoportugueses (1987). O fotocompositor mudou-se para uma vila perto da autoestrada que vai da Galiza para Madrid, a uns 15 quilómetros da capital. Ali estive uma vez com ele. Mais tarde chamou-me Dámaso Gutiérrez para ir a Madrid, pois o Montero comprara a nome de Alhena uma máquina em Barcelona, que não pagava, para declarar que Alhena nunca comprara tal máquina. Declaramos a mulher de Dámaso e mais eu. E aí terminou tudo”, lembra Isaac.
1.-Lembrar que, quando em 01/01/2002 se começou a utilizar o euro (€), moeda hoje vigorante na União Europeia, o valor de 1€ equivalia a 166,386 pesetas espanholas e a 200,482 escudos portugueses.
Interesse de Manuel Alvar e nova edição em Sotelo Blanco (1995).
Esgotada aquela edição “pensamos em fazer uma nova, para a qual tinha um prólogo de Manuel Alvar, quem naquela altura, além de ser professor catedrático da Universidade Complutense de Madrid, era o diretor da Real Academia Espanhola, e de quem eu fora aluno na Complutense e por isso me tinha muito apreço pessoal. Graças a ele concederam-me uma bolsa, que me serviu para trabalhar no dicionário. Mais tarde o próprio Alvar ofereceu-me outra oportunidade, de participar no Curso Superior de Filologia de Málaga [que ele promoveu durante mais de 35 anos, dependente do Consejo Superior de Investigaciones Científicas], para completar os estudos de doutoramento. Estavam feitas umas 900 páginas do dicionário e a possibilidade de acrescentá-lo. Alvar queria que fizesse uma introdução ao dicionário que me serviria como tese de doutoramento. O próprio Manuel Alvar redigiu um prólogo para a que ia ser a segunda edição desse dicionário da Alhena, mas não se levou a cabo. Ainda conservo aquele seu prólogo. Antes publicara um artigo sobre o Dicionário no jornal La Voz de Galicia”. Nesse artigo, difundido em 10 de dezembro de 1990, tempo em que Alvar era o diretor da Real Academia Espanhola, salienta do “gran Diccionario gallego de Isaac Alonso”, como a sua leitura o levava a concluir que “habrá que plantearse — una vez más— las relaciones de Portugal con Galicia, pues alface, mojo o mil más no son exclusivas de un dominio sino que pertenece a los dos. Se nos está planteando la propia naturaleza de cualquier lengua, y la del gallego en el caso que estudiamos: una estructura lingüistica recibe influjos muy variados, a los que recoge y asimila o rechaza. Este Diccionario tiene muy clara conciencia de cómo son las cosas y, lo mismo ocurre en todas partes, cree que el eclecticismo es válido no como fácil componenda, sino como arduo quehacer en busca de un consenso que valga para todos y a ninguno dañe”. Conclui Alvar o seu contributo respeitante aos três volumes editados por Alhena, assinalando: “un diccionario, esto es, un utensilio eminentemente práctico nos ha venido a plantear multitud de problemas científicos. Y eso suscita una cuestión previa o conclusiva. ¿Cualquier diccionario obligaría a pensar así a un historiador de la lengua? ¿O sólo obligan a ello los buenos diccionarios?”.
No entanto, sim haveria uma nova edição impressa do Dicionário da Língua Galega de Isaac Alonso Estraviz: a que que publicou em 1995 a editora Sotelo Blanco, de Santiago de Compostela. Constava de um único volume e, para a sua viabilidade, Estraviz teve de suprimir parte das entradas dos três volumes da Alhena. Esta nova edição contava de 1.591 páginas e apresentava-se como um dicionário manual completo e, dentro dos manuais “o mais completo” das línguas românicas ao uso. Aspirava a “ser utilizado por todos os galegos”, independentemente da norma, ortografia ou normativa que utilizassem. Nas suas páginas informa que, antes de se publicar, foi revisto completo por Carlos Durão, falecido em 2023 e quem, ao igual que Isaac Alonso Estraviz, esteve entre os membros fundadores da AGLP.
Profissional docente e investigador, tradutor e produtor literário.
Isaac Alonso Estraviz nasceu em Vila Seca (Ourense), em 26 de janeiro de 1935. É licenciado em Filosofia pela Universidade de Comilhas (1973), em Filosofia e Letras pela Universidade Complutense de Madrid (1974) e nesta mesma universidade em Filologia Românica (1977). Também é diplomado em Cultura e Língua Portuguesas pela Universidade de Lisboa (1976). Atingiu o grau de doutor em Filologia Galega pela USC (1999) com a tese O Falar dos Concelhos de Trasmiras e Qualedro, que lhe orientou o professor doutor Jesus Pena Seijas: é esta uma investigação de 1.581 páginas, distribuídas em 2 volumes, em que se ocupa de gramática, fonética, sintaxe, léxico, literatura popular, jogos e tradições e outros assuntos que ele pesquisou, e em que dedica também 7 páginas a citar as pessoas que foram “principais informantes” para realizar esse trabalho, em especial entre os anos 1992-1998. Em 1986 ele foi assim mesmo um dos três representantes da Galiza, juntamente com José Luís Fontenla e Adela Figueroa, no encontro internacional reunido no Rio de Janeiro para procurar um novo Acordo Ortográfico para a Língua Portuguesa.
Na década de 1970-1980, Isaac Alonso Estraviz ministrou aulas de língua e cultura galegas em Madrid, nas associações Lôstrego, Irmandade Galega e no Ateneo de Madrid. No ano letivo 1984-1985 foi contratado e incorporou-se ao quadro de docentes do centro privado Pablo VI, da Rua de Petim. Neste concelho ourensano também colaborou em Rádio Antojo, “que levávamos católicos e galeguistas” diz, e onde lembra um contributo muito especial: uma entrevista que lhe fez a Manuel Rodrigues Lapa e que se difundiu naquela estação de rádio, mas cuja gravação se extraviou “e bem que o lamento, porque era um depoimento muito valioso”. Naquele projeto colaborou com outro docente, Ramón González Cid, que era de Maceda. Depois exerceu em centros de ensino secundário como professor de Língua e Literatura Castelhana, entre 7 de novembro de 1985 a 30 de junho de 1987, como docente substituto, ensinando em liceus de Ferrol, Ponte d’Eume, Santiago, A Corunha, Ponte Vedra, Vigo e Ordes, com aulas ministradas em galego. Estando em Ordes recebia cartas da Junta de Galiza para que concorresse a uma praça. Saiu triunfante e por conselho de Maria do Carmo Henriques Salido, pediu para o IES Otero Pedraio de Ourense, de onde se apresentou depois para uma vaga de Didática da Língua e Literatura da Universidade de Vigo, Campus de Pontevedra e depois Ponte Vedra e Ourense e, quando foram aumentadas as horas letivas, só Ourense.
Para além de lexicógrafo, lexicólogo, docente e investigador, Isaac Alonso Estraviz é tradutor e produtor literário. Entre as distinções que tem recebido, o Concelho de Qualedro dedicou-lhe a sua Sala de Cultura; é membro correspondente da Academia das Ciências de Lisboa; ou, ainda em 19 de julho de 2022 foi reconhecido com a Medalha de Ouro de Ourense, que lhe entregou a Deputação Provincial, num ato em que fez a sua laudatio Maria do Carmo Henríquez Salido, professora catedrática da Universidade de Vigo.
Do seu tempo como professor assinala Isaac Alonso Estraviz: “Sempre que dei aulas de galego, em centros públicos ou privados, nunca tive um livro de texto. Expunha todas as normativas vigentes para a língua galega, mas não exigia que ninguém utilizasse a minha, dava liberdade, só lhes pedia ao alunado que fossem coerentes na que escolhessem. Para mim, isso teria sido a salvação do galego: não impor, mas fomentar o carinho pela língua”.
Na profissão teve presente também o valor didático da lexicologia e da lexicografia, já desde os inícios. Em outubro de 1984, quando lecionava no centro privado antes assinalado da Rua de Petim, numa entrevista jornalística afirmava ter um projeto para que o seu alunado elaborasse durante o ano letivo um dicionário com palavras de aquela comarca ourensana.
O futuro: a Fundação Estraviz.
Nos meses finais de 2024, para além de continuar com o dicionário, Estraviz informa que “estou a trabalhar numa autobiografia. Tenho já mais de 80 páginas. Vou completar algumas informações do livro de Bernardo Penabade, e acrescentar cousas novas”.
E qual será o futuro do dicionário?, pergunto. E responde: “Quando eu morrer, corresponderá à Fundação Estraviz, que se está a constituir. Já a tínhamos bastante avançada, mas ultimamente houve problemas por parte da advogada que se ocupa da burocracia, e que estão a ser solucionados. Trabalhamos nos Estatutos. A ideia é que estejam representadas as três universidades galegas e duas portuguesas. As gestões para as portuguesas estavam avançadas, mas houve mudança na presidência da Câmara Municipal de Montalegre e tenho que renovar os contatos com a nova presidenta; já falámos e ela disse concordar com o projeto. Há que ir preparando o terreno para ficarem as cousas prontas”.
A Fundação Estraviz também se ocupará da sua biblioteca, em que “há muitos materiais que não tem nenhuma universidade galega. Esta casa onde moro e todo o que tem dentro, e a horta que a rodeia, tudo vai ser para a Fundação”, anuncia Isaac.
PARA SABER MAIS.
Alonso Estraviz, Isaac, “O nosso dicionário”, in Penas, Miguel (2012, coord.), PGL 10: a nossa língua na rede, a nossa língua no mundo, Ourense, Através, pp. 135-139.
Alvar, Manuel, (10/10/1990), “Pensando sobre los diccionarios”, La Voz de Galicia, p. 7.
Carballo Calero, Ricardo, “Prólogo”, in Alonso Estraviz, Isaac, (1983) Dicionário Nos Ilustrado, A Corunha, Nos, pp. VII-IX.
Delgado, F, (05/10/1984), “Entrevista con Isaac Alonso Estravís”, La Voz de Galicia (Edição de Ourense), p. 37.
Gômez, Joel R., (2010), “O mundo que o português criou para o galego; reportagem com Isaac Alonso Estravís, Camilo Nogueira, Valentim R. Fagim e Elias J. Torres Feijó”, Arraianos, nº 8; pp. 107-110
Henríquez Salido, Maria do Carmo, (2022), “Laudatio in honorem Isaac Alonso Estraviz”, Boletim da Academia Galega da Língua Portuguesa, nº 15, pp. 197-203.
Penabade Rei, Bernardo (2013), Conversas com Isaac Alonso Estraviz, Santiago de Compostela, Através. [Este volume, de mais de 250 páginas, que incorpora importante documentação e iconografia, é na atualidade a principal referência sobre Isaac Alonso Estraviz].
Vidal, Alonso, (2005), “Estraviz: Na Galiza som muitas as palavras porque som muitas as paisagens”, Novas da Galiza, número extraordinário, pp. 221-223.
AGLP 15/12/2024
⇒ Texto de Paulo Mirás.
No dia 14 de dezembro, deste já quase extinto 2024, decorreu na livraria Couceiro de Santiago de Compostela a primeira apresentação do livro Galizan Nation: Uma distopia kpop, publicado na Companha Editora. Este é o segundo contributo literário da conhecida guitarrista e professora de guitarra do conservatório profissional compostelano, Isabel Rei Samartim.
Após ter-nos deliciado com o seu relato erótico, recolhido no livro Abadessa, oí dizer, uma coletânea de diversas vozes femininas; e de ter publicado Guitarra Galega: Breve história da viola (violão) na Galiza, um livro de ensaio sobre a genealogia da guitarra galega; ambas as publicações na Através Editora, agora arrisca publicando a sua primeira novela.
O evento começou com uma sucinta apresentação do Diniz Cabreira, que falou um bocado sobre a editora, o tipo de livros que publicam, nomeadamente o recém-publicado volume da Isabel. Depois disto, o Diniz interpelaria a escritora, que daria passo a uma interpretação musical, mas não antes de explicar que ambas as obras que seriam tocadas aparecem mencionadas no livro, dando-nos a possibilidade conhecê-las detalhadamente: “Trémolo a Conchita” de Luís Eugénio Santos Sequeiros e “Minha lira” uma mazurca de João Parga. Com elas foi capaz de deixar a sala, completamente lotada de pessoas, em absoluto silêncio. Ressonaram as cordas na velha livraria, entre arpejos, acordes, percussão e lindos harmónicos, preparando o público para a introdução do livro.
Após a atuação musical ao vivo, a Isabel sentou à mesa com os seus acompanhantes. Ficaram dispostos de esquerda a direita, autora, editor e prefaciadora: a Isabel, o Diniz Cabreira e a Teresa Moure. Esta última, a reconhecida escritora e professora da USC, apresentou a sua amiga Isabel, descrevendo abundantemente o trabalho da guitarrista e fazendo diversos comentários sobre o livro, tentando sempre aliciar o público para ler o livro e sem dar excessivas informações que pudessem causar qualquer tipo de spoiler.
A seguir, a Isabel falou sobre a sua obra e o paralelismo criado nela entre a Galiza e a Coreia. O encontro foi bem conduzido, mantendo sempre um trato cordial e de amizade, criando sorrisos entre o público e os apresentadores. Finalizou com o agradecimento da Isabel que, apesar dos nervos, conseguiu dar fim ao evento com sucesso, anunciando que este seu primeiro livro terá continuidade com futuras novelas.
O único ‘galego’ que vai sobreviver é o português
José-Martinho Montero Santalha
A Víctor Freixanes, com admiração e amizade
“Unha lingua para o futuro”
O querido e admirado amigo Víctor F. Freixanes, presidente da Real Academia Galega, escrevia sobre o galego como “Unha lingua para o futuro” (no jornal La Voz de Galicia, domingo 26 de março de 2023, num dos sempre interessantes artigos semanais da sua secção “Vento nas velas”), tentando responder às perguntas que lhe formularam umas alunas corunhesas de Instituto: “por que o idioma perde falantes” e “como podemos recuperar o galego”. (Reproduzo na íntegra este artigo à maneira de apêndice).
À pergunta «E haberá algún método para aumentar o número de galegofalantes?» responde ele formulando uma série de propostas:
“- Traballar máis activamente na escola, dende os primeiros anos.
- Concienciar as familias de que a transmisión da lingua de pais / nais a fillos / fillas é unha riqueza, ademais dun acto de amor.
- Potenciar o idioma nos medios de comunicación e nas redes sociais.
- Animar a creación de produtos audiovisuais e interactivos, música, videoxogos, para que a lingua galega estea máis presente nas industrias da comunicación e o ocio.
- Avivar a lectura.
- Promover espazos para o galego na administración, na publicidade, no comercio, no deporte…”
São propostas gerais que todos os amantes do galego desejaríamos ardentemente ver implementadas. Bem intencionadas, mas tão indeterminadas que afinal reduzem-se a palavreado vazio e inoperante. Na mesma linha poderíamos propor outras não menos desejáveis mas igualmente aéreas:
“- Dar 50 euros cada dia a um pai ou uma mai que vaia falando galego aos seus nenos pela rua”.
Perguntareis: “E quem lhos vai dar? Donde se vai sacar esse dinheiro? Como se vai poder organizar a operação?” Poderíamos replicar: “Ah, essas são perguntas que já não me corresponde responder: eu já formulei a minha proposta de solução...”.
Porque essa proposta utópica tem aproximadamente as mesmas características das formuladas por Freixanes. Por exemplo “Concienciar as familias de que a transmisión da lingua de pais / nais a fillos / fillas é unha riqueza, ademais dun acto de amor”.
Esse era igualmente o nível do tão cacarejado e aéreo “Plan de normalización” de 2004 (no qual, por sinal, a consciência lusófona está tristemente ausente). Escolho ao acaso uma das suas medidas: “Fomentar o uso do galego por medio de medidas de promoción profesional e prestixio dos funcionarios que a vaian usando”.
“Concienciar as famílias”, propõe Freixanes. E como se vão “concienciar”, e quem o vai conseguir? Porque isso já é o que todo o galeguismo vem (vimos) tentando fazer desde há 50 anos pelo menos, mas tudo está a indicar que a grande maioria das famílias estão bem “concienciadas” justamente do contrário.
Quer dizer: essas propostas são “palavras ao vento” ou “brindes ao sol”. Formulam acções que dependem de outras pessoas –que um sentido realista da vida indica que não as vão realizar.
Comenta Freixanes: “Algo imos mellorando. Segundo os barómetros do Goberno de Francia, o galego ocupa o posto número 37 entre os idiomas máis destacados no mundo”. Não sei que autoridade ou credibilidade terá esse barómetro, e seria bom constatar que lugar se reserva nessa listagem ao provençal ou ao bretão ou ao catalão ou ao basco na França centralista e glotófoba... Mesmo sendo certo esse dado, quer dizer que “imos melhorando”? Ou será mais bem que marchamos “de vitória em vitória a caminho da derrota final”?
Claro que na realidade a nossa língua, pelo feito de ser a mesma da lusofonia, está num posto muito mais elevado que esse 37º...
Mudar de rumo
Se queremos tentar mudar a situação, não podemos colocar a solução em mudanças de atitude por parte de outros que não parece tenham intenção ou desejo de adotar uma praxe diferente da que vêm mostrando nos últimos tempos. Teremos que partir da premissa de que somos nós, os amantes do galego, os que teremos de mudar de tática: constatar que estamos fracassando e analisar se algo vimos fazendo mal. Porque parece óbvio que, se não dispomos de outros recursos que os que vimos empregando nos passados decénios, então o final do galego está cantado...
Carvalho Calero comparou uma vez o galeguismo com um grande transatlântico que vai navegando. Nele há muitas pessoas que trabalham com imensa generosidade e entrega em atividades diversas: uns atendendo as máquinas e o combustível para que o barco avance, outros cuidando da limpeza do conjunto, outros preparando as comidas de todo o pessoal, alguns proporcionando entretenimento aos viajantes... Mas não há ninguém que considere qual é o rumo que levamos.
O galeguismo deveria reconhecer que o barco em que viajamos leva um rumo errado, que nos conduz ao precipício. Parecemos a orquestra do Titanic, mantendo admiravelmente a constância do nosso trabalho e intentando levantar os ânimos do pessoal enquanto o nosso barco se está afundando...
“Um idioma extenso e útil”
Que podemos então fazer?
Não convenceremos a maioria dos pais galegos, e dos galegos em geral (nomeadamente, dos mais novos), tentando fazer-lhes crer que o galego é bom simplesmente porque “é nosso”. Nosso era também o carro de vacas ou bois, ou a esfolha do maíz nas noites de inverno... Para que sintam que a língua merece ser apoiada têm que perceber, em primeiro lugar, que conta com probabilidades de sobreviver, e, em segundo lugar, que tem alguma utilidade. Como dizia Castelao: que é “um idioma extenso e útil”.
“Oxalá os bascos tivéssemos um Brasil detrás: não o desaproveitaríamos” –nos dizia o linguista basco Txillardegi há já 40 anos numa conferência em Ferrol (cidade à qual sentia carinho, porque nela passara o seu serviço militar obrigatório, como tantos outros rapazes bascos de então).
Realmente, na história do galeguismo houve suficientes manifestações, como Castelao quando declarava desejar que o galego se identifique com o português para que o nosso idioma seja “extenso e útil”. E não pode deixar de surpreender que o galeguismo oficial desconsidere tantas manifestações reintegracionistas de mestres do galeguismo como Murguia, Pondal, Viqueira, Risco, Vilar Ponte, Castelao, Paz Andrade, Jenaro Marinhas, Guerra da Cal, Carvalho Calero... Na prática o que parecem pensar os dirigentes culturais de hoje é “Que tontinhos eram! Como se equivocaram!...”. E conseguintemente: “E nós que listos somos, que sabemos compreender bem a situação!”...
Algumas propostas concretas
O galeguismo tem na sua mão algumas medidas que sim poderiam ter alguma eficácia.
Pode-se, por exemplo, antes de mais, cessar o apartheid e o ostracismo oficial ao reintegracionismo; isto é: deixar de penalizar e excluir os escritos em normativa reintegrada em editoras, publicações periódicas, concursos, subsídios oficiais, etc. Há aí todo um movimento florescente da cultura galega que está forçado a viver à margem, como esteve o galeguismo nos piores anos da pós-guerra.
Pode-se mudar nas instituições galeguistas a consideração do galego como “língua independente” do português para passar a considerá-lo como uma denominação que se dá à língua portuguesa da Galiza.
Com essas e outras medidas que estão nas mãos do galeguismo dominante, pode-se promover entre a gente a ideia de que a língua da Galiza é a mesma de Portugal e das suas ex-colónias, e que portanto dispõe de um catálogo imenso de recursos impressos, digitais, cinematográficos, musicais... que são aproveitáveis de maneira imediata: que, em definitivo, o nosso idioma, ademais de ser nosso, é um idioma “extenso e útil”, que não está ameaçado de morte. O galeguismo, porém, vive alienado de todos esses recursos, numa voluntária e irracional “folga de fame”...
Isso talvez ajudará a consciencializar mais positivamente as famílias galegas e a apoiar a transmissão geracional. Não será fácil, porque a alienação provocada por estes 40 anos de incutir-lhes a visão do português como alheio a nós –quando não perigoso para a nossa identidade cultural–, não se muda da noite para a manhã: esse dano está feito, e sempre é mais trabalhoso reconstruir que destruir.
Essa mudança de mentalidade no galeguismo dominante levaria consigo outras inovações decisivas. Em primeiro lugar, que os programas de estudo do galego incluíssem o conhecimento da normativa ortográfica portuguesa, de maneira que o alunado aprendesse que mulher, filho, caminho, bem, algum, rua não estão pior escritos que muller, fillo, camiño, ben, algún, rúa..., nem deixam de ser galegos por adotar a grafia da lusofonia (ao contrário: deixam de ser castelhanizantes). Em segundo lugar, que os programas de literatura incluíssem textos literários luso-brasileiros como parte da nossa língua. (Realmente já era assim nos primeiros programas pre-autonómicos, depois modificados).
Levaria consigo também o aproveitamento na rádio galega de canções luso-brasileiras, e na televisão galega de películas ou séries. Os ouvidos galegos estamos habituados a escutar e compreender falas andaluzas, por exemplo, mas não as da nossa própria língua na pronúncia portuguesa ou brasileira. Precisa-se uma formação desse hábito. Mas para isso não é necessário, e de pouco serve, legendar as conversas “traduzindo-as” (por exemplo, pondo “atopar” em vez de “achar”, ou “amosar” em vez de “mostrar”, ou “bos días” em vez de “bom dia”...). Pode ser útil legendá-las, mas no texto original português, que favoreça o seu seguimento: com essa aprendizagem, para a maioria dos espectadores os textos escritos vão ser tão compreensíveis como os galegos.
Esse futuro...
Tal como as cousas foram vindo, não parece uma profecia arriscada afirmar que o único galego que vai sobreviver é o português. Carvalho Calero, quando caiu na conta deste feito, empreendeu uma revisão da normativa linguística da sua obra literária, e espontaneamente deixou por escrito autorização para reeditar no futuro toda a sua obra em normativa portuguesa, considerando que, por meritórios que fossem esses seus esforços de criação literária, foram em grande medida “passos perdidos” e levavam um rumo errado.
E este parece ser o futuro que espera a uma grande parte da produção literária galega.
A maioria dos livros galegos editam-se graças aos subsídios oficiais, sobretudo por meio da compra de um determinado número de exemplares (depois armazenados, como já outros bem informados têm denunciado). Os livreiros galegos declaram que os livros galegos não se vendem. Basta observarmos as montras das livrarias e vermos quantos livros galegos há expostos. (Naturalmente, não se incluem nesta situação as poucas e meritórias livrarias que desenvolvem um apoio consciente ao livro galego). E talvez podemos acrescentar que, dos poucos que se vendem, poucos se leem. Os que a gente compra e lê são os best-sellers espanhóis do momento, que os meios de comunicação dominantes promovem.
A cultura galega vive, pois, numa atmosfera gerada artificialmente.
Agora os nossos escolares ainda encontram os autores da literatura galega nos seus planos de estudo. Mas por quanto tempo vai seguir sendo assim? Noutras palavras, por quanto tempo os políticos (que são os que estabelecem os planos de estudo, os subsídios às edições, etc.) vão seguir apoiando uma língua que nunca falaram nem sentem? Quando lhes faltar a experiência vital da língua é de temer que os políticos acabarão por não ver sentido a manter uma artificiosa “alimentação intravenosa”... Alguns já o estão dizendo, e podemos ver o que está a ocorrer já em Valência ou nas Ilhas Baleares. Vai ser melhor o nosso futuro?
Não é de prever um desmoronamento geral de todo o sistema cultural galego? Na realidade, esse desmoronamento já está acontecendo, embora de maneira menos aparatosa do que poderá ser o seu colapso final.
Apêndice
Víctor F. Freixanes
Unha lingua para o futuro
(“Vento nas velas”)
(La Voz de Galicia, domingo 26 de março de 2023)
Alumnas de secundaria dun instituto da Coruña pregúntanme polo futuro da lingua galega e amósanme a súa preocupación: «por que o idioma perde falantes? Os nosos avós aínda o falan na aldea, pero os nosos pais xa non». Os pais viñeron vivir á cidade contra finais do pasado século, en realidade xa se criaron na cidade, aquí se coñeceron. Elas, as mociñas, criáronse en castelán. Só cando van á aldea, visitar os avós, senten a lingua arredor, e quixeran que as cousas non fosen así. «Como podemos recuperar o galego?», preguntan.
Parece unha pregunta inocente. Pero non o é. Están pedindo respostas. Pertencen a unha xeración nova que, aínda que non o pareza, embarullados que estamos na anestesia social, manteñen o espírito crítico, se cadra dun xeito máis instintivo que consciente, case diría que para sobrevivir. Saben que o mundo lles vai pedir respostas, obrigadas a posicionárense diante das encrucilladas que se aveciñan; incluída a propia identidade, alicerces sobre os que construír un proxecto de futuro (persoal e colectivo).
Poida que sexan minoría. Sempre foi así. Mais son a panca que ha de mover o mundo.
No concello de Ames rematou estes días outra fermosa experiencia: Modo Galego. Actívao, unha invitación a que, con naturalidade e sen obrigacións, coma quen propón un xogo, ou un desafío, rapaciños e rapaciñas usen durante tres semanas a lingua na escola, nos recreos, na casa, cos amigos, coa familia, en todas partes e a todas horas: unha lingua que, na meirande parte dos casos, é lingua de seu, mais que vive agochada nos faiados da memoria (os pais e os avós temos que facer unha reflexión sobre o que isto significa), e alí onde non é lingua de seu convertela en lingua de relación e afectos, invitando a participar nela os que veñen de fóra ou non a teñen viva na casa.
Algo imos mellorando. Segundo os barómetros do Goberno de Francia, o galego ocupa o posto número 37 entre os idiomas máis destacados no mundo por cultura e influencia social: 634 escolmados contra case 6.000 que hai no planeta, a inmensa maioría dos cales non sobrevirán ao século. Non ha ser o noso caso, afortunadamente.
Velaí as mociñas coruñesas. «E haberá algún método para aumentar o número de galegofalantes?», preguntan. Traballar máis activamente na escola, dende os primeiros anos. Concienciar as familias de que a transmisión da lingua de pais/nais a fillos/fillas é unha riqueza, ademais dun acto de amor. Potenciar o idioma nos medios de comunicación e nas redes sociais. Animar a creación de produtos audiovisuais e interactivos, música, videoxogos, para que a lingua galega estea máis presente nas industrias da comunicación e o ocio. Avivar a lectura. Promover espazos para o galego na administración, na publicidade, no comercio, no deporte… Pero moi especialmente nos dous primeiros ámbitos: a familia (que é o principio de todas as cousas) e a escola.
Nota: Este artigo apareceu originariamente no diário digital "praza.gal" do dia 5 de dezembro deste 2024.
AGLP 30/10/2024
No dia de ontem, 29 de outubro de 2024, ficou constituído em Santiago de Compostela (Galiza) o Observatório da Lusofonia "Valentín Paz Andrade", mais de um ano depois de que o Diário Oficial da Galiza (DOG) publicara o decreto que criava e regulava dito organismo, e dez anos depois de que o Parlamento da Galiza aprovara por unanimidade a Lei 1/2014, do 24 de marzo, para o aproveitamento da língua portuguesa e vínculos com a lusofonia. Este órgão terá como objetivo “assessorar a Xunta da Galiza, formular planos de ação e desenhar atividades de conhecimento ou intercâmbio”. O Observatório da Lusofonia "Valentín Paz Andrade" será integrado pelas entidades galegas relevantes na relação com estes países, tanto a nível linguístico como noutros domínios.
António Gil, presidente da AGLP, participou no ato de constituição
O Observatório da Lusofonia nasce assim com uma década de atraso, em cumprimento da referida lei, popularmente conhecida como Lei Paz Andrade, que leva o nome da iniciativa legislativa popular que a impulsionou com o apoio de 17 mil assinaturas. A criação do Observatório ocorre também no cumprimento do mandato legal de desenvolvimento regulatório contido no artigo 28.º da Lei 10/2021, de 9 de março, que regulamenta a ação externa e a cooperação para o desenvolvimento da Galiza, com o intuito de “reconhecer e intensificar" os laços com todos os países de língua portuguesa.
O Presidente da Xunta, Alfonso Rueda, comprometeu-se no ato de constituição a dar maior impulso às relações sociais, culturais e económicas com os países de língua portuguesa e defendeu que a Galiza reúne todas as condições para desempenhar um papel relevante como “ponte” entre os países lusófonos no mundo e os países hispânicos.
O chefe do Executivo galego considerou que a constituição deste órgão servirá para aprofundar as relações entre a Galiza e Portugal e, por extensão, com todos os países de língua portuguesa. Neste sentido, avaliou que a afinidade linguística com o galego constitui uma vantagem competitiva e salientou a necessidade de alargar, especialmente entre os jovens, “a perceção da enorme utilidade da nossa língua” e a “abertura ao mundo que o galego nos dá” através da ligação com a língua portuguesa. Afirmou também que há tempo que a Xunta marcou como prioridade as relações com uma comunidade de falantes com 270 milhões de pessoas, como é a lusófona. Deste jeito, na Estratégia de Ação Externa Galega (EGAEX), aprovada em 2015, o estreitamento dos laços com a Lusofonia já era uma prioridade.
No seu discurso, Rueda lembrou que já existem “mais de 5.000 estudantes na Galiza a aprender português e toda a cultura que tem a ver com a Lusofonia”, número que se comprometeu a valorizar e aumentar. Além disso, lembrou que a entrada da Espanha como Observador Consultivo na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) permite que a Galiza esteja agora presente em grupos de trabalho de especial interesse. No domínio das relações com Portugal destacou particularmente o papel da Eurorregião, citando várias das iniciativas promovidas desde o governo galego para aproveitar os laços com a Lusofonia, como o programa de intercâmbio académico Iacobus ou o cultural Nortear.
O presidente da Xunta defendeu ainda a necessidade de continuar a unir a voz para exigir melhoras que permitam o progresso em ambas regiões, como já foi feito na recente sessão plenária da Comunidade de Trabalho Galiza-Norte de Portugal, mencionando especialmente a ligação ferroviária de alta velocidade entre a Galiza e Portugal como fulcral para continuar a progredir nas sinergias positivas entre ambos os territórios. “Estamos num momento em que teremos que fazer toda a força necessária conjuntamente num interesse comum”, disse.
Da mesma forma, o Conselheiro de Cultura, Língua e Juventude, José López Campos, destacou durante o evento que as relações históricas, culturais e linguísticas entre a Galiza e Portugal “representam uma grande oportunidade para promover o uso do galego”. “Esta é a razão fundamental pela qual o lançamento deste Observatório da Lusofonia Valentín Paz Andrade é particularmente relevante”, defendeu. Além disso, sublinhou que entre as medidas que o seu Departamento irá implementar até 2025 está “incentivar a utilização do galego em toda a sociedade”, bem como achegar a sua importância para a juventude.
No observatório, além dos departamentos da Xunta, estão representadas a Administração Geral do Estado Espanhol, a Administração Portuguesa e os observadores consultivos na Galiza da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), como o Conselho de Cultura Galega (CCG), a Academia Galega de Língua Portuguesa (AGLP), a Associaçom Galega da Língua (AGAL) e a Associação de Docentes de Português na Galiza (DPG). Fazem também parte da entidade a AECT da Eurorregião, a Federação Galega de Municípios e Províncias (Fegamp), o Instituto Galego de Análise e Documentação Internacional, a Fundação Centro de Estudos Eurorregionais Galiza-Norte de Portugal e outras organizações com interesses políticos e sociais, económicos e culturais na Eurorregião Galiza-Norte de Portugal como associação cultural e pedagógica Ponte nas Ondas (PNO).
Fontes:
AGLP 27/10/2024
A Professora Doutora Ana Salgado, presidente do Instituto de Lexicologia e Lexicografia da Língua Portuguesa da Academia das Ciências de Lisboa (ILLLP-ACL), avançou que convidará a Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP) para trabalhar conjuntamente e enriquecer o léxico da Língua Comum, em acontecimentos agendados proximamente. Assim o indicou na sua intervenção no Dia da AGLP, o sábado 5 de outubro, em Santiago de Compostela. “Contamos com o vosso apoio e colaboração para continuar a enriquecer a nossa língua e cultura”, afirmou na sua intervenção.
Ana Salgado, quem também é docente e investigadora na Universidade Nova de Lisboa, esclareceu iniciativas e projetos como o Dicionário da Língua Portuguesa da ACL, publicado em edição digital, com mais de 100.000 entradas e por volta de 195 000 sentidos; o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, o Dicionário Histórico Biográfico da ACL; o Thesaurus de Ciências da Terra, os dicionários de Ciências da Vida e de Ciências da Terra, e outros da instituição lisbonense. Também pôs em destaque um encontro agendado para o 13 de novembro em Lisboa, em que Ricardo Cavaliere, o responsável de lexicografia da Academia Brasileira de Letras será recebido na ACL, o que favorecerá o diálogo entre ambas as instituições nesta matéria; e um acontecimento previsto em Cabo Verde, em que especialistas da Comunidade de Países da Língua Portuguesa (CPLP) trabalharão a respeito da entrada de neologismos na Língua Comum; ou a preocupação sobre a aplicação do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.
Integração da Galiza
A que foi a atividade central do Dia da AGLP celebrou-se na sede da instituição, a Casa da Língua Comum, em Santiago de Compostela. Entre as pessoas assistentes estavam os Exmos. Sres. Ángel Rodríguez, Iria Taibo e Patricia Iglesias, deputados no Parlamento de Galiza pelos grupos do PP, BNG e PSdeG-PSOE, respetivamente; Alexandre Banhos, presidente da Fundação Meendinho; e Marinha Area e Mar Lopes em representação da Associaçom Galega da Língua; para além de numerárias e numerários da AGLP e outras pessoas.
O presidente da AGLP, António Gil Hernández, ressaltou na apresentação que a AGLP supõe que haja um tempo anterior e um tempo posterior para a língua da Galiza. Lembrou como antecedentes a Comissão para a Integração da Galiza no Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, em que se tinham envolvido vultos como José Luís Fontenla, Ernesto Guerra da Cal, Ricardo Carvalho Calero e Valentim Paz Andrade, e que tinham conseguido a presença de representações da Galiza quando se debateram os Acordos Ortográficos da Língua Portuguesa no Rio de Janeiro em 1986 e em Lisboa em 1990. Neste último, o próprio Gil Hernández foi um dos representantes da Galiza. Também aludiu como antecedente da AGLP à Associaçom Galega da Língua (AGAL). Pôs em destaque como estas duas entidades, juntamente com a Associação Docentes de Português na Galiza, também de orientação lusófona, estão integradas na atualidade como Observadoras Consultivas na Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP). Gil Hernández assinalou assim mesmo como a AGLP, nos 16 anos que leva em andamento, estabeleceu protocolos e colaborações, através da Fundação AGLP, em Portugal e outros países lusófonos, e que busca uma receptividade semelhante também no Reino da Espanha. Na Galiza, neste tempo, para além de ter trabalhado com entidades académicas, universitárias ou simplesmente cívicas, também tem realizado esforços na colaboração com grupos ecologistas e da ação social, acrescentou.
A vice-presidente, Concha Rousia, lembrou como a AGLP estava a celebrar o 16º aniversário –começou o seu andamento em 6 de outubro de 2008–, um tempo que é “a idade do consentimento” e que a trajetória até agora “dá para celebrar”. Lembrou publicações como a edição do Boletim da AGLP, de periodicidade anual; vários livros, entre os quais singularizou a coleção Clássicos da Galiza; e o ter participado ativamente em encontros em países da CPLP como o Brasil, Cabo Verde, Moçambique e Portugal, ou mesmo em Macau, para favorecer a integração da Galiza no espaço lusófono. Referiu-se à AGLP como “uma entidade privada dedicada ao serviço da sociedade” e como “uma voz que surgiu da sociedade civil para dar asas, dar visibilidade, aos anseios não satisfeitos da nossa sociedade”. Afirmou Rousia que “a integração da Galiza no espaço lusófono está a dar os seus frutos e algumas alegrias”.
Novas incorporações, música e poesia
A professora e escritora brasileira Adrienne Savazoni, na sua condição de académica correspondente da AGLP, lembrou numa palestra, através de videoconferência, a sua descoberta e relacionamento com a Galiza nos últimos anos, pondo em destaque “a sua língua, paisagem e gente” e o ter encontrado nela as “raízes da minha cultura”. Salientou o trabalho com uma das línguas “mais belas, mais musicais e propensas para a poesia”. Agradeceu o ter colaborado com Pedro Casteleiro e Paulo Fernandes Mirás, académicos numerários da AGLP.
Joel R. Gomes tomou posse como novo académico numerário da AGLP, reivindicando na sua intervenção o legado de Ricardo Carvalho Calero como produtor de trabalhos literários e de opinião divulgados na comunicação social. Centrou-se no contributo de Carvalho Calero sobre política linguística no jornal La Voz de Galicia, o meio em que mais colaborou. O seu discurso de receção teve resposta do académico numerário José-Martinho Montero Santalha.
O Dia da AGLP finalizou com música do grupo galego CANAVERDE (Andrés Fernández, Jesús Arranz, Irene Veiga e Xico Paradelo), que interpretou canções galegas e portuguesas; e com um recital poético de Concha Rousia, Iolanda Rodrigues Aldrei, José Manuel Barbosa e Pedro Casteleiro, numerárias e numerários da AGLP.
AGLP. 09/10/2024
No passado dia 1 de outubro, uma delegação da Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP) visitou Lisboa para realizar encontros no âmbito académico e com a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).
Assistiram para este fim o Presidente, António Gil, o Coordenador da Comissão de Relações Internacionais, Ângelo Cristóvão, e a Delegada em Lisboa e para a CPLP, Maria Dovigo. Os encontros tiveram lugar na Academia das Ciências de Lisboa, com o Presidente, Prof. Doutor José Cardoso, com quem foram abordados projetos de colaboração e trocaram publicações.
Na sede da CPLP, com o Diretor de Ação Cultural, João Boaventura Ima-Panzo, e a responsável técnica, a Dra. Rosa Pais, onde a AGLP explicou os projetos a desenvolver durante os próximos meses. O Sr. Dr. Ima-Panzo verbalizou a possibilidade de alargar à Galiza, e a todo o território do Estado Espanhol, a rede de Escolas Amigas da CPLP que já está a ter sucesso noutros territórios de países membros.
Na Missão do Brasil junto da CPLP, com o Ministro-Conselheiro Pablo Duarte Cardoso, e o Oficial da Divisão Cultural, com quem se abordou a possibilidade de realização de atividades de promoção da língua portuguesa, no quadro da adesão da Espanha em qualidade de estado Observador Associado. Comentou-se também o importante papel do Instituto Internacional da Língua Portuguesa no seguimento de uma necessária perspetiva policêntrica das políticas culturais no espaço linguístico do português.
Na sede da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa, UCCLA, com o Secretário Geral Vitor Ramalho e o Diretor Cultural, Rui Lourido, assistidos pela técnica Raquel Carvalho e Caroline Cecarello. Na sede desta instituição, sita junto ao mar, na Avenida da Índia, comentaram-se as opções organizativas da próxima Conferência Internacional que a AGLP vai realizar, em 2025, em colaboração com a Comissão Temática de Promoção e Difusão da Língua Portuguesa, dos Observadores Consultivos da CPLP.
O Dr. Rui Lourido teve a amabilidade de acompanhar os representantes galegos fazendo de cicerone na apresentação da exposição de autores de Macau que se exibe na sede da UCCLA, fornecendo detalhes de cada uma das obras de arte expostas, assim como o seu significado e enquadramento histórico, e ainda ilustrando com comentários detalhados sobre cada artista.
AGLP 02/10/2024
Na manhã do sábado, dia 5 de outubro, a Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP) vai celebrar o seu já tradicional DIA DA AGLP; um evento que, para além de servir como espaço de convívio e encontro da comunidade académica e de todas as pessoas que colaboram com a AGLP, também é a data na qual dita instituição recebe no seu seio as pessoas designadas como novos/as académicos/as de número. Nesta ocasião está prevista a tomada de posse de Joel Rodrigues Gomes, o qual pronunciará o seu discurso de ingresso que será respondido polo professor José-Martinho Montero Santalha, com discurso de receção. O ato será aberto com as palavras de boas-vindas do recentemente eleito presidente da AGLP, professor António Gil Hernández.
No completo programa elaborado figuram a palestra da Doutora Ana Salgado, presidente do Instituto de Lexicologia e Lexicografia da Língua Portuguesa (ILLLP), da Academia das Ciências de Lisboa (ACL) e o depoimento da académica correspondente, Professora Adrienne Savazoni, docente de Língua Portuguesa na rede pública de ensino da Galiza e Doutora em Estudos Literários pela Unesp Araraquara (São Paulo, Brasil).
Na seção cultural do evento haverá espaço para um recital de música galego-portuguesa, a cargo do grupo galego CANAVERDE, que interpretará temas clássicos de grandes figuras da nossa música como o Zeca Afonso, Suso Vaamonde ou o recentemente falecido Fausto Bordalo.
Ainda as pessoas assistentes poderão gozar de um recital de poesia no qual participarão académicas/os numerárias/os e amigas/os da AGLP.
O discurso de tomada de posse de Joel Rodrigues Gomes, o novo académico de número, estará subordinado ao título "O discurso jornalístico sobre política linguística de Carvalho Calero: por um galego rendível, económico e competitivo".
Joel Rodrigues trabalhou como jornalista no diário La Voz de Galicia entre os anos 1981 e 2022. Em 2009 doutorou-se na USC com a pesquisa A trajetória de Ernesto Guerra da Cal nos campos científico e literário, orientada pelo professor doutor Elias Torres Feijó, trabalho realizado no Grupo de Investigação nos Sistemas Culturais Galego, Luso, Brasileiro e Africanos de Língua Portuguesa (Galabra) e editado também em 2009 pelo Serviço de Publicações da USC. Entre as suas publicações, podem-se salientar as duas mais recentes: Ernesto Guerra Da Cal, do exílio a galego universal (Através, Santiago de Compostela, 2015) e Vite de Compostela, a comunidade (auto-)construída (Coleção Anaina do Instituto de Ciências do Património-Consejo Superior de Investigaciones Científicas, Santiago de Compostela, 2023).
PROGRAMA:
12 h. Apresentação e palavras da Presidência
12h15. Tomadas de posse: Joel Rodrigues Gomes, a que responderá José-Martinho Montero Santalha com discurso de receção.
13 h. Depoimento da académica correspondente, Profa. Adrienne Savazoni.
13h15. Palestra da presidente do ILLLP (ACL), Doutora Ana Salgado.
13h40. Música do grupo Canaverde.
14h10. Recital poético.
14h40. Encerramento.
O passado dia 6 de julho, em cumprimento do mandato estatutário, o pleno da Fundação Academia Galega da Língua Portuguesa renovou e ampliou a Comissão Executiva da instituição, cuja composição é exposta a seguir:
Presidência: António Gil Hernández
Vice-Presidência 1ª: Concha Roussia
Vice-Presidência 2ª: Rudesindo Soutelo
Tesouraria: Ângelo Cristóvão Angueira
Secretaria: Pedro Casteleiro
Vice-Secretaria: Maria Seoane Dovigo
Arquivo e Biblioteca: Joám Trilho
Vogais: Antia Cortizas Leira e Mário Herrero Valeiro.
AGLP. 30/09/2024
Amanhã, 1 de outubro, Dia Mundial da Música e Dia Nacional da Água, o Conservatório de Música e Teatro de Barcelos celebra a data com diversos atos poéticos e musicais. Pelas 17h15, no Pátio-Auditório do Conservatório, terá lugar a estreia da última obra de Rudesindo Soutelo, membro numerário da Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP), ele foi o seu segundo presidente, no período 2016-2024. A obra. que leva por título Divertimento 11, para dois fagotes, será interpretada pelo professor Tiago Rodrigues, e a aluna do 11º ano Diana Costa.
O Divertimento 11 é, por agora, a última de uma série de obras curtas, e de estrutura simples, para diversos instrumentos a solo, duo ou trio, que Rudesindo Soutelo está a compor como um leque exploratório de possibilidades expressivas. Os próximos Divertimentos estão já em elaboração e pretende, no mínimo, completar uma coleção de 24 peças, ainda que podem ser mais.