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Uma nova edição de Ostrácia, de Teresa Moure, numerária da AGLP, reivindica “um estilo galego na Lusofonia”

Para mim Ostrácia é carne viva”, afirmou a académica no lançamento desta versão revisada e “mais galega”. Afirma que neste romance, como noutros trabalhos seus, tenta “recuperar figuras femininas da história que têm sido apagadas das versões oficiais”

AGLP 15/03/2025

Texto: J. Rodrigues Gomes. Coordenação Linguística: Antia Cortiças. Produção: Xico Paradelo.


Teresa Moure, numerária da Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP), reivindicou que “temos direito a ter um estilo galego na Lusofonia”, no lançamento de uma nova edição do seu romance Ostrácia, em Santiago de Compostela. É mesmo uma nova edição, não uma reimpressão mais: apesar de que a capa é a mesa, acrescentando só o número da nova edição galega, sob a chancela da Através; e a contracapa e a badana da capa também continuam o mesmo (sim mudam, evidentemente, as novas publicações da editora anunciadas na badana da contracapa, atualizando a informação das mesmas). Agora oferece uma nova versão, “mais galega”, após ter revisado o texto Olívia Pena Arijón, professora e doutora em galego-português especializada em estilística e crítica literária, quem partilhou com Moure o ato deste novo lançamento, o 27 de fevereiro, no salão da Casa do Taberneiro de Compostela. Assim, agora Ostrácia é “mais galega do que antes”, sublinhou Olívia Pena, quem disse que sentia como este novo texto é assim em parte também seu. “Uma escritora precisa sempre uma corretora”, frisou Moure, quem se manifestou satisfeita das mudanças, que as duas comentaram e acordaram antes da nova impressão.

O lançamento desta nova edição foi um aliciante diálogo entre Teresa Moure e Olívia Pena. Acontece dez anos depois da primeira edição. E Moure lembrou como, também dez anos antes, tinha publicado outro romance histórico, Herba Moura, que foi acolhido pelo mercado com “um inexplicável sucesso, à custa, em boa medida, de perverter as intenções da autora”. Teresa Moure esclarece que, entre os objetivos desta narrativa, como de outros trabalhos seus, está recuperar figuras femininas da história que têm sido excluídas das versões oficiais.

Interesse da crítica

Enriquece-se assim a história e a trajetória de Ostrácia, um produto literário especial para a sua autora. Ostrácia foi traduzida para espanhol (na editora Tiempo de papel, em 2021); e Moure valeu-se do seu primeiro capítulo “Sobre nós, as aranhas”, para a sua apresentação nas Correntes da Escrita da Póvoa de Varzim em 2019. A crítica galega, e a não galega, evidenciou interesse nesta narrativa; mesmo a lusófona, como se pode ver na recensão que a professora de literatura e crítica brasileira Maria Fernanda Garbero, docente e investigadora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, publicou no número 8 do Boletim da Academia Galega da Língua Portuguesa (pp. 171-176)1, onde põe em diálogo Ostrácia com outras duas obras de Moure: Eu violei o lobo feroz (Através, 2013) e Uma mãe tão punk (Chiado, Lisboa, 2014).

Ostrácia, na edição galega –na espanhola há divergência, por causa da diferença de referentes a respeito da trajetória de Moure, segundo ela própria esclareceu— consta de uma “Nota” inicial, de apenas umas linhas, mas de relevo e interesse para quem decida refastelar-se na sua leitura; a história, em que são centrais as relações entre as personagens de Vladimir I. Lenine e a revolucionária Inessa Armand, consta de quatro partes: “A persuasão”, “A hegemonia”, “A revolução” e “Um mundo novo”. Na continuação inclui um “Posfácio”, de 4 páginas, datado em “Compostela, 2015, primavera a arder”, em que refere dados de relevo do processo de produção do texto, narrado por uma filha de Inessa Armand; e finaliza dando conta de “Referências básicas”, oito publicações editadas entre 1992 e 2015 (esta última data é também a da primeira edição galega de Ostrácia), em que se alicerçou para escrever este livro.

Dum lado a História; doutro a intimidade. Dum lado, as palavras de ordem das ideologias políticas revolucionárias. Doutro, o orgasmo múltiplo e os fetiches do Domínio e a Submissão. Dum lado, as figuras de Lenine, Alexandra Kollontai, Nádia Krupskaia e, sobretudo, Inessa Armand. Doutro, a experiência de escrever sendo mulher e, portanto, interpretando como autora de textos vagamente feministas, reivindicativos mas também florais e românticos. Quando a escritora acha um fio narrativo singular –a vida da revolucionária bolchevique Inessa Armand–, experimenta certas contradições” assinala-se, à partida, na contracapa de Ostrácia, para dar conta ao leitor. Esse espaço, tão de relevo, finaliza pondo em destaque como “Se a militância fosse entrega e as ideologias tiverem que mudar o mundo, então Inessa Armand e a escritora devem entrelaçar-se para contar o nunca contado: que Política e Erótica vão da mão, que tudo na Política, como na cama, se reduz a bailar com o Desejo. Para a política não ser politiquinha e o Desejo não se conformar com desejinhos. Para fazermos habitável a Ostrácia”. Uma Ostrácia que ela define como “esse território para a liberdade e para a dissidência”

Teresa Moure ingressou na AGLP tempo depois de publicar Ostrácia. O seu discurso, “Identidades aracnídeas e verdades incómodas”2, evoca esta narrativa: nele defende como a mentira é um talento ao dispor de todas as pessoas, mas como o “cerne da minha identidade” é que “não posso conformar-me com a mentira”, apesar de que “quem escreve, mente” e “a narração é mentira elevada à condição de arte”, entre outras afirmações que também são de ajuda para entender esta exitosa Ostrácia.


1 Este boletim, como os restantes publicados pela AGLP, está disponível, de acesso livre e de graça, neste mesmo sítio web.

2 O discurso está publicado no número 10 do Boletim da Academia Galega da Língua Portuguesa, nas pp. 243-259; e na continuação, nas pp. 261-264, a resposta que teve do académico Mário Herrero Valeiro. Este boletim, como os restantes publicados pela AGLP, está disponível, de acesso livre e de graça, neste mesmo sítio web.

António Gil Hernández, presidente da AGLP, falou dos seus estudos sobre Biqueira na Universidade da Corunha

Salientou o Biqueira político, para além dos seus contributos literários, à Filosofia e à Psicologia, e a sua proposta de convergência ortográfica galego-portuguesa. A estes assuntos António Gil tem dedicado mais de três décadas de estudo.

 

AGLP 05/03/2025

Texto: J. Rodrigues Gomes; Produção: Xico Paradelo.


João Vicente Biqueira1 (Madrid, 22/10/1886- Lagoa-Bergondo, 29/08/1924) “sobretudo era um bom galego. Os problemas políticos e sociais da nossa Terra encontraram uma calorosa ressonância no seu peito generoso e ao lado dos nacionalistas galegos” afirma-se no livro Johán Vicente Viqueira. João Vicente Biqueira (1924-2024). Poemas e Ensaios, publicado na Através Editora em 2024, em edição que promoveu a Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP) e sob a responsabilidade de António Gil Hernández, agora presidente desta instituição. Os elementos dessa citação estiveram no centro da sua intervenção na Faculdade de Filologia da Universidade da Corunha o 25 de fevereiro, onde proferiu uma palestra sobre Biqueira e a Galiza federada. A sua presença deveu-se a um convite dos Professores Isaac Lourido e Roberto Samartim, e ao grupo de investigação ILLA, o que lhe ofereceu ocasião de conversar com estudantes das Filologias sobre a trajetória de Biqueira, com ensejo do centenário da morte deste vulto da Galiza.

Foto dos assistentes à palestra de 25 de fevereiro deste ano 2025 na Facultade de Filoloxía da UDC. Junto do professor Gil está o Prof. Isaac Lourido.

António Gil Hernández investiga sobre este intelectual galeguista há mais de três décadas. Em 30 de junho de 1994 participou num ato literário sobre Biqueira na Casa de Cultura do Concelho de Bergondo, sob presidência do seu filho, o Eng. Jacinto Viqueira Landa e esposa; foi uma atividade em que se honrou a memória de Biqueira no septuagésimo aniversário da sua morte. Já antes se tinha interessado Gil por este vulto, e continuou com novos contributos nos anos seguintes. Para além do pensamento político, assunto em que centrou esta palestra na Universidade da Corunha, também trabalhou sobre os contributos de Biqueira à Literatura Galega, onde destaca, entre outros assuntos, por ser um adiantado do movimento do Neo-trovadorismo, anos antes de Bouza Brei, quem está considerado hoje o seu iniciador; no Campo da Psicologia tem destaque por ser introdutor da Psicologia Experimental na Península Ibérica, após ter tido relação direta com W. Wundt; salientam igualmente os seus estudos sobre o bilinguismo e a psicologia da educação; e conta também com uma importante obra filosófica. Biqueira também foi um dos primeiros defensores da convergência ortográfica galego-portuguesa. E todos eles são assuntos do maior relevo e de atualidade, assinala Gil Hernández.

A respeito desta recente intervenção na Faculdade de Filologia corunhesa, manifesta António Gil: “Entendi que a palestra deveria ser levada como conversa com as pessoas assistentes mais do que como conferência quase protocolária. Nem o tempo programado, entre as 13.00 e as 14.00 horas, nem o previsível interesse do público aconselhavam o contrário. Comecei dando uma leve notícia sobre a pessoa e obra de Biqueira, que foi Catedrático do Instituto de Secundária Eusébio Da Guarda, presidente das Irmandades da Fala na Crunha e mais participante da Assembleia Nacionalista de Lugo. Continuei com a leitura do artigo ‘O dia de mañán’, publicado postumamente, em 6 de decembro de 1924, no semanário socialista Justicia Social, órgão da USC (Unió Socialista de Catalunya)”. Esclarece António Gil como neste artigo Biqueira se declara republicano e federalista, e ressalta o seguinte excerto:

No crítico momento presente conviria que os elementos que somos partidarios de un novo federalismo, en que nos achamos arredados os uns dos outros, entrásemos en comunicación. Para elo o centro poderia ser o valioso nucleo que integra Justicia Social. Nesta comunicación concretaríanse as concepciós que o dia de mañan serian un feito. [...] Que estas liñas de verdadeira simpatia pol-os meus amigos cátalas, poidan espertar o interés, en toda España, por unha meditación sobre dun futuro estado republicano federal socialista ou social, meditación que si é fonda e sinceira, trocarase o día de mañán en realidades”.

Após diversos comentários a esse e outros textos biqueiranos, citou também o seguinte trecho da conferência "Divagações enxebristas":

A Humanidade, para cumprir todas as promessas que leva no seu seio ou, ainda melhor, para criar tudo o que leva em potência (pois, antes de ser, onde jaz?), desfaz-se em Nações. Já a vida precisa, para ser, do princípio de individuação, a saber, de ser como indivíduo ou concreções de indivíduos. Idêntico princípio é o da evolução humana que também é cósmica, quer dizer, uma parte do processo universal. Como vedes, o meu Nacionalismo tem uma base cósmica e metafísica. A Humanidade desfaz-se em Nações, porque precisa órgãos. As Nações, pois, são órgãos da Humanidade. Elas fazem tudo o que é factível em cada tempo. Não num momento de tempo, mas no se sucederem os tempos. E aqui, também, cada uma tem a sua missão; e quando a sua missão acaba, morre! Mas a missão da Galiza chega e por isso ressurge”.

Esta citação é da Obra seleta de Johán Vicente Viqueira (página 72), que António Gil Hernández publicou no ano 2011 na coleção Clássicos da Galiza [nas Edições da Galiza, de Barcelona], promovida pela AGLP. Também é autor de um longo artigo “Johán Vicente Viqueira e a Comunidade Lusófona da Galiza”, nos boletins números 10 e 11 da AGLP, correspondentes aos anos 2017 e 2018 [estes boletins estão disponíveis, de acesso livre e de graça, neste sítio web da AGLP].

Esta intervenção na Universidade da Corunha finalizou com um breve colóquio sobre Biqueira pensador e político, e também sobre o seu poetar. “Muito agradeço aos professores Lourido e Samartim, ao grupo ILLA e à Faculdade as facilidades para realizar o ato-conferência sobre Biqueira”, sublinhou o presidente da AGLP.


1 Gil Hernández tem utilizado indistintamente Viqueira e Biqueira: Viqueira por ser “a denominação por ele usada”, e para “respeitar o desejo expresso da família”; mas Biqueira, por considerar que dever ser assim mais corretamente grafado este apelido “com B inicial, por ser derivado de bico”, segundo esclarece em Obra seleta de Johán Vicente Viqueira (Gil Hernández, 2011, página 13).

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